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Paulo Geraldo -
03 Abr 05
Porque
Já tinhas dito que sentias a morte perto. Tremia-te a voz e
tremiam-te as mãos e tinhas o corpo
cheio de dores. Depois, enquanto a tua imagem diminuía e se apagava
diante do nosso olhar, crescias ainda mais nos nossos
corações. Em ires até ao fim houve uma forma de nos gritares aquilo
que a tua voz já não era capaz de dizer.
Já de muitas maneiras te tínhamos agradecido, mas é conveniente
dizer-te de novo um obrigado imenso.
Porque só tu nos disseste a verdade. Os outros disseram-nos aquilo
que queríamos ouvir e aquilo que nos agradava - pois queriam
ganhar adeptos e lucrar com isso - mas tu, como amigo sincero, não
tiveste receio de usar as palavras verdadeiras. Ainda que fossem
duras, ainda que corresses o risco de ficar sozinho.
Porque, se o caminho real era empinado e agreste, não nos indicaste
outro mais à medida da nossa preguiça, da nossa avareza, da nossa
luxúria. Não quiseste enganar-nos. Disseste-nos como podíamos
encontrar-nos connosco
mesmos e confiaste em que seríamos capazes de ser fortes.
Porque os outros quiseram enriquecer à custa de ficarmos
desnorteados, e tu quiseste tornar-nos ricos gastando o teu sangue e
a tua vida.
Porque o teu dia começava cedo e acabava tarde. Porque tinhas, com
tanta idade, a agenda tão cheia. Rezavas e trabalhavas, mas ao
rezarestrabalhavas e ao trabalhares rezavas. Ninguém sabe dizer
quando é que descansavas.
Porque foi sempre para ti que olhámos em primeiro lugar, quando os
poderosos preparavam novas guerras nos lugares onde há petróleo,
quando o ódio derrubava edifícios, quando chegavam notícias de novos
"avanços" científicos que pareciam fantásticos, mas nos
cheiravam a esturro.
Porque os teus olhos eram limpos e o teu sorriso era bom e o teu
coração bateu sempre ao lado do nosso.
Porque eras um dos nossos nas tuas vestes brancas.
Porque envelheceste cuidando de nós.
Porque foste baleado por dizeres a verdade. Porque não andavas
mascarado, como os outros.
Porque não ficaste no teu palácio de Roma, mas vieste ter connosco
até aos cantos mais pequenos do mundo e quiseste aprender connosco e
sentir os nossos entusiasmos nobres. Porque quiseste falar-nos nas
nossas línguas.
Porque quando te apresentámos as nossas crianças tu as beijaste e
abençoaste sem fingimento, como quem faz uma coisa muito, muito
importante.
Porque quando olhavas para nós vias uma bondade e uma força e uma beleza
em que já não acreditávamos.
Porque o pequeno e o grande tinham um lugar do mesmo tamanho no teu
coração. Porque não te preocupaste apenas com os que te eram
próximos no pensamento, mas resolveste carregar sobre os teus ombros
as dores, as
preocupações, os lutos e as lágrimas de todos os homens de todas as
religiões.
Porque guardavas no teu coração as nossas dores e sofrias com elas e
nós somos muitos. Porque de tanto te abraçares ao teu Cristo
crucificado te tornaste tão humano. Porque também escreveste as tuas
poesias.
Porque salvaste tantas vidas. Porque trabalhaste pela paz. Porque
chegaste ao fim de um caminho tão longo cheio da juventude do amor.
Porque morreste repleto de obras e de sonhos, olhando para as tuas
mãos, tão cheias, com a impressão de as veres vazias.
Paulo Geraldo
Professor de Língua Portuguesa
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