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E o direito a nascer?
Jorge Bacelar Gouveia
A questão da despenalização
do aborto sempre tem sido e
espero que volte a ser uma
questão substancial, de
natureza cultural e
civilizacional, com a
importância de por ela
passar a identidade de uma
sociedade
A recentíssima aprovação,
pela Assembleia da
República, de um novo pedido
de referendo sobre a questão
do aborto veio recolocar na
ordem do dia a temática tão
séria quanto melindrosa da
vida humana intra-uterina e
da sua protecção.
Infelizmente, a discussão
tem sido apenas processual,
determinando-se até quando é
que pode ser convocado o
referendo, se pode ser
realizado nos períodos
eleitorais ou qual a razão
de ser de tal não poder
acontecer juntamente com as
eleições segundo a actual
versão da Constituição.
A certa altura, tudo parece
reduzir-se a um esquema mais
ou menos táctico, em que
cada passo espera pelo passo
do adversário, com todo o
esvaziamento substantivo que
lhe vai sendo inerente.
E esta tendência chega mesmo
aos dirigentes dos partidos
que, em vez de dizerem o que
pensam, mesmo a título
pessoal e não em nome dos
partidos que dirigem, se
limitam a fazer análises de
prioridade política e,
assim, se vão coibindo de
manifestar a sua posição
nessa matéria.
A questão da despenalização
do aborto sempre tem sido e
espero que volte a ser uma
questão substancial, de
natureza cultural e
civilizacional, com a
importância de por ela
passar a identidade de uma
sociedade.
Só que não deixa de espantar
que a pretendida realização
do referendo sobre a
despenalização do aborto
surja num directo contexto
político-eleitoral, sem que
se cuide verdadeiramente de
saber que esforços foram
realizados para evitar os
dramas humanos que lhe estão
associados, como se houvesse
um qualquer milagre em que a
simples decisão referendária
pudesse resolver algum
problema real.
Por outro lado, muitos têm
feito crer que Portugal é,
nesta matéria, um dos países
mais atrasados do Mundo, com
uma legislação
"cavernícola", feita contra
as mulheres e contra os
ventos da modernidade ou,
talvez melhor dizendo,
pós-modernidade.
A actual legislação
portuguesa aceita a não
penalização do aborto nas
circunstâncias
particularmente dramáticas
de aborto eugénico,
terapêutico e criminológico,
tendo parecido ao legislador
que estas seriam causas
fortes para justificar a
eliminação da gravidez.
E essa é uma legislação que
se afigura perfeitamente
equivalente às outras
legislações europeias, tanto
nas indicações possíveis do
aborto não punível, como nos
prazos em que tal acto vem a
ser praticado.
O que está de novo em causa
- como estava em 1998,
quando foi feito o
referendo, que terminou com
a vitória do "não" - é a
possibilidade de se dar um
passo qualitativo de grande
monta, que é a aceitação do
aborto livre ou a pedido,
normalmente fundado em
razões pessoais, económicas
e sociais.
Quer isto tudo dizer que, no
caso de este passo ser dado,
cabe aos intervenientes -
mãe e técnicos de saúde -
disporem das condições de
sobrevivência de um ser
humano apenas com base em
razões que, valorativamente,
lhe são inferiores, tal como
se percebe da dignidade da
pessoa humana, que impõe o
primado da pessoa sobre o
dinheiro ou sobre o prazer.
Se, acaso, esta viesse a ser
a nova solução,
enfrentaríamos uma perigosa
inversão de valores, que
também espreita quando se
fala na questão da
possibilidade da legalização
da eutanásia.
Este é verdadeiramente o
cerne do problema, que não é
tanto o da incriminação da
mulher que vai abortar, pois
que na esmagadora maioria
dos casos não pode ser
condenada por lhe faltar um
juízo de censurabilidade da
sua conduta, atendendo ao
estado de angústia e de medo
em que se encontra.
Mas em toda esta matéria
igualmente impressiona o
silêncio com que é visto o
ser humano que, no ventre
materno, se encontra em
desenvolvimento, que tem a
nossa mesma natureza, mas
que para seu azar não pode
ser visto, não pode ser
escutado e não pode falar.
Não terá ele o direito a
nascer e não teremos nós, a
começar pelo Estado, a
obrigação social de lhe
proporcionar todas as
condições para ser bem
recebido?
Claro que sim. Só uma
sociedade doentia é que pode
acreditar que a
liberalização do aborto seja
um bem. |