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Diário de Notícias - 09 Fev 05

 

Há um voto católico?

Jorge Bacelar Gouveia

No meio de tantas peripécias que têm acompanhado o arranque da campanha eleitoral, há uma que tarda em manifestar-se, mas que é mais um dado relevante a considerar a posição dos cidadãos que se assumam católicos em relação aos programas eleitorais e às escolhas dos líderes que se candidatam ao cargo de primeiro-ministro.

E não deixa de ser impressionante o acentuado obscurecimento a que esta questão tem sido remetida, ao contrário da importância de outros votos, como o voto das ilhas, o voto das regiões continentais, o voto dos advogados e dos médicos, o voto dos clubes de futebol, o voto dos artistas, o voto das mulheres ou o voto dos idosos.

Então, e o voto dos católicos, como será?

Alguns dirão logo a correr que este tema é absurdo, porque traduziria uma mistura inadmissível entre um juízo político - que agora se vai expressar num acto eleitoral - e um juízo religioso, íntimo e moral, não pertinente ao espaço público.

Verdadeiramente, não é assim cada cidadão, nesta sua veste, não pode deixar de ser pessoa e age segundo um complexo feixe de opções e de motivações, nelas necessariamente também estando presentes as decisões políticas que melhor se possam afeiçoar a uma visão da sociedade e do semelhante consentânea com as suas próprias convicções religiosas.

Contudo, se é verdade que é pertinente a motivação religiosa, não é menos verdade que se coloca a pergunta mais directa acerca das concretizações partidárias que daí possam derivar, ou seja, saber da existência de um voto católico, o mesmo é dizer, quem vota com uma motivação religiosa endereça o seu voto para um certo partido?

É óbvio que formalmente não há nem nunca poderia haver um voto católico, uma vez que os planos que estão em causa não se cruzam directamente, nem sequer a doutrina católica - ou qualquer outra religião moderada, pelo menos - se poderia associar a uma representação partidária ou a certo dirigente político, por muito que batesse no peito ou por muito que invocasse o nome de Deus.

Porém, daí não se segue a absoluta irrelevância da motivação religiosa nas escolhas eleitorais do próximo dia 20 de Fevereiro de 2005. Se é certo que não há um voto de natureza religiosa, também é seguro que o mesmo deve ter alguma repercussão nas escolhas de cunho político.

Claro que a importância desta questão, há que admiti-lo, se posiciona hoje, numa democracia ocidental, em patamares mais finos da gestão da coisa pública, pois a formatação do modelo das relações entre o Estado português e as confissões religiosas está constitucionalmente traçada e é por todos aceite, aliás, com recentes aperfeiçoamentos como a lei da liberdade religiosa e a Concordata entre Portugal e a Santa Sé.

Por outro lado, é de referir que a força social e política do catolicismo, neste sentido amplo, tem vindo a diminuir, em grande medida pela dificuldade de comunicação dos ideais cristãos de que padecem algumas faixas do seu actual clero. Em contrapartida, as confissões mais pequenas, pela novidade e pelo dinamismo, assumem uma maior capacidade de intervenção, nalguns casos até podendo melhor negociar apoios a certas formações políticas.

Ainda assim, não deixa de ser importante frisar que, no limite, há questões políticas que só podem ser religiosas, ainda que isso ponha os cabelos em pé aos mais infrenes laicistas e anti-religiosos o aborto livre, a permissão da eutanásia, o desprezo pelos mais pobres, o conformismo com as desigualdades do Terceiro Mundo.

Eis alguns dos tópicos - infelizmente, muitos outros há - que não podem deixar de ser vistos à luz da doutrina religiosa, em grande medida comum às diversas religiões implantadas em Portugal.

Ora, nada disto se relaciona com a repugnante onda de boatos que tem assaltado a vida privada dos políticos, que só poderia interessar na medida em que delas se pudesse inferir uma atitude política inerente à governação, o que não parece ser plausível.

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