Há um voto católico?
Jorge
Bacelar Gouveia
No
meio de tantas peripécias que têm acompanhado o arranque
da campanha eleitoral, há uma que tarda em
manifestar-se, mas que é mais um dado relevante a
considerar a posição dos cidadãos que se assumam
católicos em relação aos programas eleitorais e às
escolhas dos líderes que se candidatam ao cargo de
primeiro-ministro.
E não deixa de ser impressionante o acentuado
obscurecimento a que esta questão tem sido remetida, ao
contrário da importância de outros votos, como o voto
das ilhas, o voto das regiões continentais, o voto dos
advogados e dos médicos, o voto dos clubes de futebol, o
voto dos artistas, o voto das mulheres ou o voto dos
idosos.
Então, e o voto dos católicos, como será?
Alguns dirão logo a correr que este tema é absurdo,
porque traduziria uma mistura inadmissível entre um
juízo político - que agora se vai expressar num acto
eleitoral - e um juízo religioso, íntimo e moral, não
pertinente ao espaço público.
Verdadeiramente, não é assim cada cidadão, nesta sua
veste, não pode deixar de ser pessoa e age segundo um
complexo feixe de opções e de motivações, nelas
necessariamente também estando presentes as decisões
políticas que melhor se possam afeiçoar a uma visão da
sociedade e do semelhante consentânea com as suas
próprias convicções religiosas.
Contudo, se é verdade que é pertinente a motivação
religiosa, não é menos verdade que se coloca a pergunta
mais directa acerca das concretizações partidárias que
daí possam derivar, ou seja, saber da existência de um
voto católico, o mesmo é dizer, quem vota com uma
motivação religiosa endereça o seu voto para um certo
partido?
É óbvio que formalmente não há nem nunca poderia
haver um voto católico, uma vez que os planos que estão
em causa não se cruzam directamente, nem sequer a
doutrina católica - ou qualquer outra religião moderada,
pelo menos - se poderia associar a uma representação
partidária ou a certo dirigente político, por muito que
batesse no peito ou por muito que invocasse o nome de
Deus.
Porém, daí não se segue a absoluta irrelevância da
motivação religiosa nas escolhas eleitorais do próximo
dia 20 de Fevereiro de 2005. Se é certo que não há um
voto de natureza religiosa, também é seguro que o mesmo
deve ter alguma repercussão nas escolhas de cunho
político.
Claro que a importância desta questão, há que
admiti-lo, se posiciona hoje, numa democracia ocidental,
em patamares mais finos da gestão da coisa pública, pois
a formatação do modelo das relações entre o Estado
português e as confissões religiosas está
constitucionalmente traçada e é por todos aceite, aliás,
com recentes aperfeiçoamentos como a lei da liberdade
religiosa e a Concordata entre Portugal e a Santa Sé.
Por outro lado, é de referir que a força social e
política do catolicismo, neste sentido amplo, tem vindo
a diminuir, em grande medida pela dificuldade de
comunicação dos ideais cristãos de que padecem algumas
faixas do seu actual clero. Em contrapartida, as
confissões mais pequenas, pela novidade e pelo
dinamismo, assumem uma maior capacidade de intervenção,
nalguns casos até podendo melhor negociar apoios a
certas formações políticas.
Ainda assim, não deixa de ser importante frisar que,
no limite, há questões políticas que só podem ser
religiosas, ainda que isso ponha os cabelos em pé aos
mais infrenes laicistas e anti-religiosos o aborto
livre, a permissão da eutanásia, o desprezo pelos mais
pobres, o conformismo com as desigualdades do Terceiro
Mundo.
Eis alguns dos tópicos - infelizmente, muitos outros
há - que não podem deixar de ser vistos à luz da
doutrina religiosa, em grande medida comum às diversas
religiões implantadas em Portugal.
Ora, nada disto se relaciona com a repugnante onda
de boatos que tem assaltado a vida privada dos
políticos, que só poderia interessar na medida em que
delas se pudesse inferir uma atitude política inerente à
governação, o que não parece ser plausível.
jbg@fd.unl.pt