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Diário de Notícias - 16 Fev 05

A pedra-pomes religiosa  

António Bagão Félix

Ministro das Finanças

Escrevo estas breves linhas na minha qualidade irrenunciável de português e de católico.

E, nessa qualidade, escrevo com tristeza. E com o cansaço do silêncio.

A morte da irmã Lúcia já foi, porque o que parece ainda ser é a discussão à volta das circunstâncias.

Abordagem cada vez mais recorrente de tudo o que é religioso em Portugal. Tudo serve para todos se servirem.

A vida e a morte parecem ser cada vez mais instrumentos ao serviço do mais reles relativismo que invade anestesiadamente parte da sociedade.

Nestas ocasiões, os habituais utentes da palavra, certificados por uma qualquer central do politicamente correcto e religiosamente conveniente, prodigalizam, em cascata, dando a sua opinião (sentença?) sobre o que os outros devem fazer e até quase pensar.

A comunicação social ávida desses comentários pré-formatados menospreza o contraditório e favorece o enviesamento da opinião pública.

Para a maioria da comunicação social, a Igreja de Portugal só existe pela boca de dois ou três dos seus eclesiásticos. Quase compulsivamente, quando é preciso um comentário, uma posição da Igreja ouvem-se os Senhores Bispos do costume ou dois ou três mediáticos presbíteros, todos eles sempre ansiosos de opinar com desvelo.

Que eu saiba, a Igreja em Portugal ainda tem uma Conferência Episcopal e o respectivo porta-voz. Foi ouvido? Como se pode pretender generalizar ou, pelo menos, deixar a ideia no ar de que a posição da Igreja é a posição mais ou menos incontinente de certas pessoas?

A face século XXI do jacobinismo alimenta-se, aliás, deste "pluralismo doutrinal" e desta "democracia de valores" estimulada pela fragmentação opinativa a que a Igreja também não está imune.

Por isso, há dias assistimos à condenação sem recurso da palavra de um Padre de Lisboa e, agora, à exaltação quase devota de Bispos mediaticamente correctos.

Aquele padre quase ficou proibido de falar em valores inalienáveis da doutrina cristã como os valores da vida e da família. Um dia após, leva em cima a enxurrada dos que acham (e se um dia puderem, impedem) que " a Igreja não se pode imiscuir na cidade dos homens".

Uns dias depois, assiste-se à louvaminha quase angélica de certos próceres radicais a propósito da opinião isolada mas audível de duas ou três figuras eclesiásticas. Aqui sim, a Igreja já se pode e deve imiscuir na cidade dos homens!

A propósito onde estavam as habituais "vozes da Igreja" aquando de uma recente cerimónia maçónica na Basílica da Estrela?

Sinais dos tempos? No fundo, é o mesmo do mesmo. Basta fazer uma apressada retrospectiva da radical e jacobina apreciação do apostolado do Santo Padre para perceber tudo. O mesmo João Paulo II que é invocado por estas forças sempre que a sua palavra coincide com as suas ideias, é violentamente criticado quando não entra no jogo do "mercado" espiritual e axiológico …

Também é recorrente nestas alturas falar da separação compulsiva entre o Estado e a Igreja.

Como há poucos anos a Conferência Episcopal Portuguesa reafirmou em Carta Pastoral, a louvável e imperativa neutralidade religiosa do Estado não pode, porém, transformar este num Estado anti-religião, um Estado confessional de sinal contrário.

Um Estado laico, não confessional, não é necessariamente um Estado ateu que faz da laicidade uma espécie de nova religião do Estado.

A laicidade do Estado não implica a laicidade da sociedade. A sociedade é plural no sentido religioso e é perigoso confundir sistematicamente, neste plano, Estado e Sociedade.

A separação do Estado e da Igreja também não significa neutralidade por omissão, indiferença, abstenção, ignorância ou desconhecimento dos fenómenos religiosos e muito menos hostilidade.

A liberdade religiosa não se limita ao plano do direito individual na esfera privada intimista, introspectiva. Exprime-se também como direito social, colectivo, comunitário. É uma liberdade de consciência individual, em primeiro lugar, sem deixar também de corporizar uma liberdade colectiva de associação, de reunião, de expressão, de comunicação.

A Igreja não é uma repartição de serviços humanitários. Oferece uma dimensão do Homem e um referencial de valores que não impõe a ninguém, mas que tem o direito de, em liberdade e igualdade, propor a todos.

É caso para perguntar a alguns fervorosos militantes da separação crua entre o Estado e a Igreja que sempre reclamam contra qualquer "ingerência" ou "promiscuidade" por que respeitam os feriados dos Dias Santos decretados pelo Estado? Já agora, que sejam coerentes até ao fim!

Como homem de fé que sou, acredito que a paciência do tempo também faz parte da mesma fé.

E como um dia disse Jean Guitton, "Deus não teme os opositores, mas sim a indiferença".

Não é contra os opositores que alinho estas palavras mas contra essa pedra-pomes religiosa que é a indiferença, o conformismo, a preguiça, o pragmatismo secular, a ausência de testemunho.

 

 

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