A pedra-pomes religiosa
António Bagão Félix
Ministro das Finanças
Escrevo estas breves linhas na minha qualidade irrenunciável de
português e de católico.
E,
nessa qualidade, escrevo com tristeza. E com o cansaço do
silêncio.
A
morte da irmã Lúcia já foi, porque o que parece ainda ser é a
discussão à volta das circunstâncias.
Abordagem cada vez mais recorrente de tudo o que é religioso em
Portugal. Tudo serve para todos se servirem.
A
vida e a morte parecem ser cada vez mais instrumentos ao serviço
do mais reles relativismo que invade anestesiadamente parte da
sociedade.
Nestas ocasiões, os habituais utentes da palavra, certificados
por uma qualquer central do politicamente correcto e
religiosamente conveniente, prodigalizam, em cascata, dando a
sua opinião (sentença?) sobre o que os outros devem fazer e até
quase pensar.
A
comunicação social ávida desses comentários pré-formatados
menospreza o contraditório e favorece o enviesamento da opinião
pública.
Para a maioria da comunicação social, a Igreja de Portugal só
existe pela boca de dois ou três dos seus eclesiásticos. Quase
compulsivamente, quando é preciso um comentário, uma posição da
Igreja ouvem-se os Senhores Bispos do costume ou dois ou três
mediáticos presbíteros, todos eles sempre ansiosos de opinar com
desvelo.
Que eu saiba, a Igreja em Portugal ainda tem uma Conferência
Episcopal e o respectivo porta-voz. Foi ouvido? Como se pode
pretender generalizar ou, pelo menos, deixar a ideia no ar de
que a posição da Igreja é a posição mais ou menos incontinente
de certas pessoas?
A
face século XXI do jacobinismo alimenta-se, aliás, deste
"pluralismo doutrinal" e desta "democracia de valores"
estimulada pela fragmentação opinativa a que a Igreja também não
está imune.
Por isso, há dias assistimos à condenação sem recurso da palavra
de um Padre de Lisboa e, agora, à exaltação quase devota de
Bispos mediaticamente correctos.
Aquele padre quase ficou proibido de falar em valores
inalienáveis da doutrina cristã como os valores da vida e da
família. Um dia após, leva em cima a enxurrada dos que acham (e
se um dia puderem, impedem) que " a Igreja não se pode imiscuir
na cidade dos homens".
Uns dias depois, assiste-se à louvaminha quase angélica de
certos próceres radicais a propósito da opinião isolada mas
audível de duas ou três figuras eclesiásticas. Aqui sim, a
Igreja já se pode e deve imiscuir na cidade dos homens!
A
propósito onde estavam as habituais "vozes da Igreja" aquando de
uma recente cerimónia maçónica na Basílica da Estrela?
Sinais dos tempos? No fundo, é o mesmo do mesmo. Basta fazer uma
apressada retrospectiva da radical e jacobina apreciação do
apostolado do Santo Padre para perceber tudo. O mesmo João Paulo
II que é invocado por estas forças sempre que a sua palavra
coincide com as suas ideias, é violentamente criticado quando
não entra no jogo do "mercado" espiritual e axiológico …
Também é recorrente nestas alturas falar da separação compulsiva
entre o Estado e a Igreja.
Como há poucos anos a Conferência Episcopal Portuguesa reafirmou
em Carta Pastoral, a louvável e imperativa neutralidade
religiosa do Estado não pode, porém, transformar este num Estado
anti-religião, um Estado confessional de sinal contrário.
Um
Estado laico, não confessional, não é necessariamente um Estado
ateu que faz da laicidade uma espécie de nova religião do
Estado.
A
laicidade do Estado não implica a laicidade da sociedade. A
sociedade é plural no sentido religioso e é perigoso confundir
sistematicamente, neste plano, Estado e Sociedade.
A
separação do Estado e da Igreja também não significa
neutralidade por omissão, indiferença, abstenção, ignorância ou
desconhecimento dos fenómenos religiosos e muito menos
hostilidade.
A
liberdade religiosa não se limita ao plano do direito individual
na esfera privada intimista, introspectiva. Exprime-se também
como direito social, colectivo, comunitário. É uma liberdade de
consciência individual, em primeiro lugar, sem deixar também de
corporizar uma liberdade colectiva de associação, de reunião, de
expressão, de comunicação.
A
Igreja não é uma repartição de serviços humanitários. Oferece
uma dimensão do Homem e um referencial de valores que não impõe
a ninguém, mas que tem o direito de, em liberdade e igualdade,
propor a todos.
É
caso para perguntar a alguns fervorosos militantes da separação
crua entre o Estado e a Igreja que sempre reclamam contra
qualquer "ingerência" ou "promiscuidade" por que respeitam os
feriados dos Dias Santos decretados pelo Estado? Já agora, que
sejam coerentes até ao fim!
Como homem de fé que sou, acredito que a paciência do tempo
também faz parte da mesma fé.
E
como um dia disse Jean Guitton, "Deus não teme os opositores,
mas sim a indiferença".
Não é contra os opositores que alinho estas palavras mas contra
essa pedra-pomes religiosa que é a indiferença, o conformismo, a
preguiça, o pragmatismo secular, a ausência de testemunho.