Papa condena aborto e Holocausto e põe em causa limites
das leis
Novo livro diz que, no século XX, o mal «foi erigido em sistema»
O Papa condena o aborto e o Holocausto, num novo livro de sua
autoria ontem posto à venda em Itália. Mas quando reflecte sobre
esses dois temas, fazendo paralelismos entre processos
legislativos, João Paulo II coloca em questão, sobretudo, os
limites de algumas leis dos parlamentos democráticos.
É no capítulo 22 de "Memória e Identidade", intitulado "A
democracia contemporânea", que o Papa escreve: "Um parlamento
regularmente eleito levou Hitler ao poder na Alemanha dos anos
30. Este mesmo parlamento (...) abriu-lhe a porta para a
política de invasão da Europa, para a organização dos campos de
concentração e para a execução da solução final, quer dizer, a
eliminação de milhões de filhos e filhas de Israel." "Basta
trazer à memória estes acontecimentos (...) para compreender
claramente que a lei estabelecida pelos homens tem limites
precisos", acrescenta o texto. "É nessa perspectiva que devemos
interrogar-nos, no início de um novo século e de um novo milénio
sobre certas escolhas legislativas decididas nos parlamentos dos
regimes democráticos actuais", escreve João Paulo II.
Neste passo, o Papa precisa: "O que vem imediatamente ao
espírito são as legislações sobre o aborto", diz."Quando um
parlamento autoriza a interrupção da gravidez, consentindo a
supressão de um nascimento, comete um grave abuso contra um ser
humano, que ainda para mais está inocente e privado de toda a
possibilidade de se defender", afirma.
E os parlamentares que aprovam estas leis devem "estar
conscientes de ultrapassar as suas competências e de entrar em
conflito aberto com a lei de Deus e a lei da natureza".
As fugas de informação que já se tinham verificado sobre o
conteúdo do livro - e segundo as quais o Papa identificava o
aborto com o Holocausto - tinham já provocado uma minipolémica
com o conselho central dos judeus alemães. "A Igreja Católica
não compreendeu ou não quer compreender que há uma enorme
diferença entre um genocídio de massa e o que as mulheres fazem
com o seu corpo", afirmou Paul Spiegel, presidente daquele
organismo, antes de conhecer as afirmações do Papa.
Na apresentação da obra, o cardeal alemão Joseph Ratzinger,
prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano,
assegurou que o Papa não pretendia fazer nenhuma aproximação
entre o aborto e o Holocausto, mas antes chamar a atenção para
"tentações permanentes da humanidade, sobre a necessidade de
atender à necessidade de não cair nas armadilhas do mal".
Sobre o mal, escreve João Paulo II que, no século XX, ele foi
desenvolvido com "desmesura, utilizando sistemas pervertidos". O
mal não foi "artesanal", no século passado, mas "manifestou-se
em proporções gigantescas, aproveitadas de estruturas de Estados
para concretizar a sua obra nefasta, foi erigido em sistema". E
continua a manifestar-se neste novo século, acrescenta, através
de "redes de terror que constituem uma ameaça constante para a
vida de milhares de inocentes", referindo depois o exemplo dos
atentados de 11 de Setembro, de Madrid no ano passado, e da
escola de Beslan, em Setembro de 2003.