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Diário de Notícias - 10
Jan 05
Ressaca
João César das Neves
Portugal, é tempo de te
deixares de choradeiras,
não achas? Esta conversa
de crise, de futuro
comprometido, do fim do
Estado- -Providência, já
começa a enjoar. Já
chega de lamentações
patéticas, intercaladas
por balofas
exuberâncias. Está na
altura, meu caro
Portugal, de deixares de
ter pena de ti mesmo, de
largares o sofá da
conversa, arregaçares as
mangas e enfrentares a
vida como ela é. As
crises são para os
homens.
Ninguém tem paciência
para te aturar mais
chorinquice. Aliás, tens
de reconhecer, esta
crise até nem foi nada
de extraordinário. Não
se justifica tanta
lamúria. Confessa que
ela foi mais uma ressaca
que uma verdadeira
depressão. Apanhaste um
pifo de euforia e
dívida, e agora dói-te a
cabeça e tens de pagar
os estragos.
Emborcaste grades de
subsídios, apoios,
benefícios, incentivos,
sem reparar que é com o
teu dinheiro que te dão
isso. Gastaste anos com
parvoíces, como o aborto
e a regionalização;
deitaste-te tarde a ver
a ficção dos reality
shows.
Depois admiras-te que os
parceiros te passem à
frente e não tenhas
produtividade.
Acreditaste nos que te
falavam em reduções de
horário de trabalho e
salários europeus, sem
ver que esses países os
têm porque trabalham
muito para o conseguir.
Quiseste fazer estádios
e andar nas ruas a
abanar bandeirinhas.
Agora acordaste. Choras
com a crise e temes pelo
fim do desenvolvimento.
Assustas-te com os
chineses e pões luto
pelos têxteis. Temes
perante a globalização e
desanimas com o atraso
na convergência.
Sentes-te desorientado e
perdido.
É incrível como
acreditaste mesmo a
sério nos muitos que te
diziam que tinhas
direito a tudo, sem
nunca te falarem nos
deveres ou explicarem
como se pagaria. Nem
sequer suspeitaste
quando os viste a
espreitar para a tua
carteira. Caíste que nem
um pato na maior das
ilusões, o Orçamento do
Estado, que dá tudo a
todos, desde que todos
lhe dêem antes. Comeste
um grande almoço e
ficaste surpreendido com
a conta.
Não sei se já te
disseram, mas não há
almoços grátis!
É incrível como voltas a
dar ouvidos aos mesmos
que agora te dizem que
não tens capacidade de
trabalho e espírito
empresarial, que não
suportas horários nem
respeitas a disciplina.
Então recomeça a
choradeira, dos
analistas de café à
reportagem de jornal.
É incrível como voltas
sempre às desculpas
estafadas. O Governo é
mau? Olha que novidade!
Mas desde o D. Fernando
são todos maus. E os
poucos que foram bons,
nunca o reconheceste;
limitaste-te a ter
saudades, depois de
dizeres todo o mal que
podias durante seu
mandato.
Os tempos estão
difíceis? Olha que
espanto! Desde o Noé que
não são fáceis. São os
homens que fazem os
tempos, sem esperarem
por ajudas. A vida é
dura? Vê lá a grande
surpresa!
Deixa-te de mariquices e
toca a andar! Está na
hora de esqueceres as
desculpas e demonstrares
aos que falam que sabes
fazer coisas úteis. Não
esperes previsões
favoráveis. Não contes
com estratégias e
políticas salvadoras.
Está na altura de
trabalhar e lançar
projectos, poupar e
investir, encontrar
clientes e fazer bons
produtos para lhes
vender. Fazer aqui e
agora, onde há
oportunidades. Como
puderes, como souberes.
FAZ! Como sempre
soubeste fazer.
Não por ti, meu caro
Portugal, mas pelos
portugueses. E deixa
dar--te uma novidade não
há cá mais ninguém. Só
tu, Portugal, podes
fazer o desenvolvimento
português. Mais ninguém.
Os outros falam. Tu
ainda cá andarás depois
de eles se calarem.
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