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Infovitae - 12 Jan
05
Três Confusões
Nuno Serras Pereira
Alguns
movimentos pró vida
(excelente escolha)
em Portugal parecem
estar assombrados por
três confusões que
conviria esclarecer:
1. A
primeira está
relacionada com a “lei”
6/84. Recorde-se que
esta “lei” infame
discrimina abusiva e
arbitrariamente entre
sujeitos humanos, não só
renunciando a tutelar os
mais fracos e indefesos
(grande parte dos
nascituros) como
transformando o Estado,
através dos seus
serviços de saúde, num
agente exterminador
dessas pessoas e
obrigando todos a
“cumpliciarem-se” nessa
matança através dos seus
impostos – chamar a isto
democracia é uma farsa
monstruosa, uma
falsidade nefanda. O
equívoco consiste em não
distinguir o gradualismo
da possibilidade futura,
em confundir o meio com
o fim. Com esta maneira
atabalhoada de me
exprimir quero dizer que
o facto de,
aparentemente, não ser
possível a curto prazo
derrogar a violência
cruel 6/84 levando a que
se tenha de batalhar
gradualmente, dando em
cada momento os passos
possíveis, não pode
impedir que os
movimentos pró vida
(excelente opção)
exprimam com clareza
a injustiça presente
e anunciem sem
ambiguidades a
meta a alcançar: o
reconhecimento da igual
dignidade de todo o
sujeito humano desde o
momento da concepção e a
consequente protecção
legal da vida,
integridade e demais
direitos do mesmo. Isto
não significa que não
possam e não devam
aliar-se a todos aqueles
que admitindo a actual
situação, não a queiram,
no entanto, ver
alargada, nem que caiam
na esparrela de discutir
o quadro legal actual
quando nos momentos em
que se debate uma ainda
mais vasta liberalização
do aborto. Mas significa
que sem uma afirmação
inequívoca da sua
identidade não é
possível engendrar e
promover uma cultura da
vida que sirva de solo
fecundo a uma legislação
que lhe seja favorável;
e também que será
impossível deter uma
maior liberalização do
aborto se se admite na
prática (ou se dá a
entender que se admite),
mesmo que seja só por
omissão, a besta
homicida 6/84. A
protecção legal de toda
a vida humana concebida
ainda não nascida é
inegociável.
2. A
segunda tem a ver com a
política partidária. Se
é certo que os
movimentos “excelente
escolha”
(pró vida)
devem manter relações
institucionais correctas
com diversas forças
políticas, importa, no
entanto, salvaguardar a
sua autonomia e
independência de modo a
não subordinarem a sua
estratégia àquelas,
podendo embora concertar
tácticas, caso a ocasião
o aconselhe. Uma vez que
as associações pró vida
são chamadas a ser na
sociedade uma voz que
proclama a verdade sobre
a finalidade do agir
político (o serviço do
bem comum, isto é, da
vida e do bem de todos e
cada um dos sujeitos
humanos, desde a sua
concepção até à morte
natural) e uma
consciência cívica que
ajude a distinguir, na
acção política, o trigo
do joio, no que respeita
à protecção legal da
vida de cada pessoa
humana, são os partidos
políticos que devem
adequar as suas
estratégias a essa
verdade anunciada e
testemunhada pelos
guardiões da vida
concebida.
Deve ser claro para toda
a gente que as
associações e movimentos
custódios da vida
nascitura e terminal não
são apêndices ou
disfarces cívicos de
forças partidárias. Não
se pode, por exemplo,
permitir a menor
suspeita de que não se
afirmam, ou se censuram,
determinadas verdades
por contraditarem as
posições de alguns
partidos. Parece, ainda,
aconselhável que os
grupos dirigentes dos
vários movimentos não
tenham nenhum membro que
seja político no activo.
Não se pode, porém, pôr
de lado a hipótese de os
movimentos pró vida, em
determinadas e precisas
circunstâncias,
aconselharem o voto num
ou mais partidos. Foi o
que sucedeu, por
exemplo, nas últimas
eleições nos USA. Mas,
então, tem que ser claro
para todos de que não
existe nenhuma
subordinação dos pró
vida a uma estratégia
meramente partidária,
mas sim uma comunhão num
objectivo preciso, a
salvação de vidas
humanas, que não se pode
alcançar de outro modo.
Não há neste caso
nenhuma subordinação,
mas, num certo sentido,
uma condução de tal ou
tais partidos pelo ideal
de defesa da vida e
dignidade do sujeito
humano na sua fase
embrionária.
Vem a propósito lembrar
que só é lícito votar
num candidato ou partido
que advogue o aborto
desde que haja uma razão
proporcional. Para que
isso se verifique é
necessário que esteja em
jogo um outro
absoluto moral de igual
ou maior gravidade;
não há equivalência
possível entre esses
bens essenciais e os que
são objecto de juízos
prudenciais.
3. A terceira diz
respeito à questão do
aconfessionalismo.
Importa começar por
denunciar uma enorme
confusão que grassa nos
dias de hoje. A
existência de Deus, a
espiritualidade e
imortalidade da alma, a
grave ilicitude da
contracepção e das
relações sexuais antes
ou fora do casamento e
dos actos homossexuais,
a família como
comunidade de vida e
amor, fundada no
casamento (fiel,
exclusivo, indissolúvel,
aberto à geração e
educação de filhos)
entre um varão e uma
mulher, por exemplo, são
em primeiro lugar
verdades de ordem
racional, anteriores e
independentes de
qualquer
confessionalismo, mas
que com ele podem ser
coincidentes. Afirmar
qualquer destas verdades
pode ser uma atitude
mais aconfessional do
que negá-las. Melhor
ainda, negar qualquer
uma destas afirmações é,
sem dúvida nenhuma, uma
tomada de posição
confessional, que brota
de uma fé irracional, de
uma crendice, mesmo de
uma superstição. Um dos
infortúnios mais
preocupantes dos nossos
dias consiste,
seguramente, no
esquecimento ou abandono
da lei natural, isto é,
da lei da natureza da
pessoa humana, da razão,
do seu lume e da sua
abertura Esta lei é
universal e
consequentemente válida
para todos. Renunciar a
ela é um absurdo que
despoja o homem da sua
humanidade. A ela
recorrer é encontrar
dados comuns que por
todos podem ser
partilhados. O facto,
por exemplo, de M.
Luther King ter sido
pastor protestante não
tornou a sua luta contra
a discriminação racial
numa questão meramente
confessional. O facto do
cristianismo anunciar a
verdade da ilicitude do
racismo não transforma
essa verdade em
confessional. Ou melhor,
essa verdade
confessional – que é
confessada também em
virtude da Fé na
Revelação divina – não
deixa de ser
aconfessional, isto é de
ordem racional -
existente mesmo que a fé
não fosse dada ou
acolhida. O facto de
serem coincidentes não
lhes retira as
características
próprias.
Por isso, não faz nenhum
sentido inibir-se de
combater determinados
males como, por exemplo,
a contracepção ou deixar
de afirmar determinadas
verdades só porque a
Igreja também o faz.
Assim como é uma tolice
não tomar determinadas
posições porque são
contrárias às de alguns
partidos de modo
idêntico é um dislate
omitir o que se deve
fazer ou dizer por ser
coincidente com posições
da Igreja ou do Papa. |