Uma
elevada percentagem de mulheres que faz abortos
corre riscos físicos e psicológicos e um dos mais
sérios é o sindroma pós-aborto, afirmou hoje, em
Lisboa, o professor catedrático e psiquiatra
espanhol Aquilino Lorente.
Lorente foi um dos oradores da conferência «A
realidade Ibérica da Saúde Sexual e Reprodutiva»,
realizada hoje em Lisboa, numa organização da
Associação das Mulheres em Acção.
«As
consequências de um aborto para a mulher são
muitíssimo graves, elas passam a sofrer de stress
crónico, a taxa de suicídio aumenta e as depressões
não respondem aos fármacos», afirmou Aquilino
Lorente.
De
acordo com dados que apresentou, 55 por cento das
mulheres que fazem abortos voluntários são
solteiras, 52 por cento não tem filhos e 77 por
cento fizeram-no pela primeira vez.
Dos
80 mil abortos, 90 por cento são realizados em
clínicas privadas, muitas vezes sem controlo
sanitário.
Em
Espanha, o aborto é uma prática legal e cerca de 80
mil mulheres abortam anualmente e a média de idade
ronda os 25 anos.
Luís Losada Pescador, economista e jornalista
espanhol, fez uma abordagem diferente do problema.
«Em
Espanha as mulheres são exploradas pelos empresários
donos de clínicas privadas responsáveis pela prática
de 97 por cento dos abortos e onde não há controlo
sanitário», afirmou.
Para Luís Losada, o aborto em Espanha «é um negócio
directo, indirecto e intelectual».
«Os
embriões são utilizados para investigação quando a
lei obriga a que sejam cremados, as mães nunca sabem
o que acontece aos seus fetos. Os laboratórios de
anti-concepcionais ganham com os abortos e as
clínicas privadas têm lucros brutais, porque fogem
aos impostos», referiu.
A
conferência contou ainda com o testemunho emotivo da
espanhola Esperanza Moreno, de 38 anos, que
colaborou no primeiro livro editado em Espanha com
testemunhos de mulheres que abortaram.
Esperanza Moreno trabalha numa associação de apoio a
mulheres grávidas e hoje falou da sua experiência
com grande emoção.
«Abortei há 11 anos, era solteira e já tinha um
filho. Foi a pior experiência da minha vida, ainda
hoje sofro do sindroma pós-aborto», afirmou,
acrescentando que actualmente sente vergonha do que
fez.
«As
clínicas parecem matadouros e nós cordeiros. Estamos
sozinhas, angustiadas, envergonhadas, sentimos culpa
e nunca mais esquecemos a experiência», acrescentou.
O
psiquiatra Pedro Afonso, do Hospital Júlio de Matos,
em Lisboa, contou um pouco da sua experiência como
médico e como voluntário no centro de apoio a
mulheres grávidas e mães de risco Sta Isabel, também
na capital portuguesa.
«Um
aborto acarreta sempre muitos riscos físicos e
psíquicos para as mulheres. A sociedade devia criar
estruturas de apoio para que as mulheres pudessem,
se quisessem, levar adiante a gravidez», afirmou.
Com esta conferência,
a Associação pretendeu «contribuir para um debate
sereno e informado sobre a questão e para o
exercício responsável da cidadania», lamentando,
contudo, não existirem dados estatísticos fiáveis
sobre a realidade portuguesa, numa altura em que se
fala da possibilidade de um segundo referendo sobre
o aborto em Portugal.