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Público - 25
Mar 03
Médicos Católicos Condenam Uso de Embriões na Investigação
Por Ana Machado
Numa altura em que o Governo se prepara para legislar, até ao Verão, sobre o
uso de embriões na investigação científica, a Associação dos Médicos
Católicos trouxe a Lisboa um especialista italiano sobre a matéria, que
criticou sentenças do Tribunal Constitucional português sobre a vida
intra-uterina e o estatuto do bebé antes do nascimento. A apresentação do
orador coube ao médico português Daniel Serrão, escolhido pelo Governo
para elaborar o documento que servirá de base à
legislação nacional.
O estatuto do embrião e a clonagem humana foram os temas do último dia do
congresso Amor, Sexualidade, Educação, Procriação, que decorreu na
Universidade Católica, em Lisboa, neste fim-de-semana. Carlo Casini, juiz
do Supremo Tribunal de Itália, presidente do Movimento
pela Vida italiano, membro da Academia Pontifícia para a
Vida e ex-deputado do Parlamento Europeu, foi o convidado
de honra. O professor de ética e bioética da Faculdade de
Medicina da Universidade do Porto, Daniel Serrão, que no início
deste mês entregou ao ministro da Ciência e do Ensino Superior o Livro
Branco sobre o uso de embriões humanos em investigação científica, é
também membro da Academia Pontifícia para a Vida, do
Vaticano e apresentou a palestra de Casini.
Perante o auditório Cardeal Medeiros cheio, Carlo Casini defendeu que o
reconhecimento dos direitos de todos os homens está dependente do dos
embriões humanos: "Pretendo demonstrar que reconhecendo e afirmando os
direitos do embrião humano não só se reconhecem e afirmam os direitos do
embrião humano, mas descobre-se e consolida-se a verdade do direito como
tal e, ultimamente, defendem-se os direitos de todos os
homens, seja qual for a situação em que se encontrem."
O juiz considera que, apesar da discussão sobre o estatuto do embrião ter
começado com a polémica em torno da legalização do aborto, as leis, que
considera permissivas, em relação a este tema não têm obrigatoriamente de
levar à negação dos direitos dos embriões.
Casini referiu-se ainda aos embriões excedentários das técnicas de
reprodução medicamente assistida, um dos temas mais polémicos quando se
fala de embriões humanos. Para o juiz italiano, os
embriões, excedentários ou não, são seres humanos: "Para
lá das aparências, esta [a reprodução medicamente
assistida] provoca uma grande quantidade de mortos entre os
seres humanos gerados na proveta e pode subverter as relações familiares
do recém-nascido." E continua: "O direito à vida e à
família da maioria dos concebidos é negado."
O magistrado opõe-se ainda ao uso de células-mãe embrionárias para fins
terapêuticos: "Naturalmente que a extracção destas células produz a morte
do embrião. O facto em apreço é que é possível matar
embriões para curar doenças graves de pessoas adultas, ou
pelo menos parece promissora uma investigação nesta
direcção, inevitavelmente destrutiva para os embriões".
Carlo Casini criticou ainda o conteúdo das últimas sentenças do Tribunal
Constitucional português sobre os direitos não do embrião mas sobre a
vida humana intra-uterina e sobre os nascituros (que já
foram gerados mas ainda não nasceram): "De facto, na
sentença de Tribunal constitucional de 29 de Maio de
1985, lê-se que 'a vida intra-uterina participa da protecção que a
Constituição confere à vida humana enquanto bem constitucionalmente
protegido, mas não pode gozar da protecção constitucional do direito à
vida que pertence às pessoas'", leu.
Mas acusou o diploma de fazer uma distinção "perversa" entre ser humano e
pessoa. "Para o filósofo, o problema era demonstrar a existência de Deus.
Agora o problema é mostrar a existência do homem". No fim, na altura em
que deveriam ser colocadas questões, a falta de tempo
impediu a discussão das ideias de Carlo Casini.
No último dia do congresso houve tempo ainda para uma exposição sobre o que
é a clonagem reprodutiva e terapêutica, a cargo de Fernando Regateiro,
médico e professor da Universidade de Coimbra, e de José Rueff, professor
da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade nova de
Lisboa.
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