Nelson Pereira
- 17 Mar 05
Como S. Tomás
Converteu o maior Médico Abortador de Belgrado
A guerra dos nascidos
contra os não-nascidos
Stojan Adasevic foi durante
anos o médico que fez mais abortos em Belgrado: “O segredo
do meu sucesso estava no treino dos dedos com frequentes
abortos. Fazia uma média de vinte por dia, o meu recorde
foram trinta e cinco”. Ao todo calcula ter realizado, em
vinte e seis anos de prática, entre 48 mil e 62 mil abortos.
Tudo mudou quando começaram a persegui-lo sonhos.
Durante muitos anos esteve
convencido que o aborto era uma operação cirúrgica como
tantas outras, comparável à extracção do apêndice
-
como ensinavam os manuais. Era considerado um especialista
na prática do aborto, o melhor em Belgrado. Nunca fugia a
uma operação difícil e orgulhava-se de conseguir sucessos
onde outros médicos falhavam.
Um dos grandes paradoxos da
vida de Adasevic é que ele próprio está entre os vivos
graças a um aborto falhado. Nos tempos de estudante escutou
uma conversa entre ginecologistas
-
um deles, Rado Ignatovic, contava como tinha falhado um
aborto por não ter conseguido dobrar o colo do útero. Quando
ouviu que a mulher em questão era dentista na clínica mais
próxima, Adasevic ficou a saber que a criança era ele
próprio. Mais tarde este facto fê-lo chegar à conclusão de
que participava numa guerra global dos nascidos contra os
não-nascidos, mas durante anos orgulhou-se de superar, na
prática do aborto, médicos incompetentes como o doutor
Ignatovic.
As primeiras dúvidas surgiram
nos anos oitenta, quando entraram nos hospitais jugoslavos
os primeiros aparelhos de ecografia. Adasevic viu então pela
primeira vez aquilo que se passava dentro do ventre da
mulher
-
a criança que mexia os pés e as mãos, momentos depois estava
em pedaços na mesa de operação. “Mas mesmo assim, via sem
ver. Só quando começaram a perseguir-me sonhos é que tudo
mudou” -
recorda hoje.
O sonho do doutor Adasevic
Uma noite Stojan Adasevic
sonhou que caminhava num campo cheio de flores e iluminado
por um sol brilhante. À sua volta via inúmeras flores de
grande beleza e borboletas coloridas e sentia um dia quente
e agradável. A certo momento, o campo encheu-se de crianças
sorridentes, que corriam e brincavam. Alguns dos rostos
pareciam-lhe conhecidos, mas não conseguia recordar de onde.
Tentou falar com as crianças, mas quando estas o viram,
fugiram apavoradas. A alguma distância um homem vestido com
um hábito negro olhava-o em silêncio. O sonho repetia-se e
cada noite o ginecologista acordava coberto se suores,
incapaz de voltar a adormecer.
Num destes sonhos, gritou às
crianças: “Não pisem as flores!”. Fugiram como das outras
vezes, mas uma delas voltou-se para ele e respondeu: “Vês as
flores pisadas e não vês o teu pecado?”. Na noite seguinte,
conseguiu agarrar uma das crianças, mas esta começou a
gritar: “Ajudem-me! Assassino! Libertem-me do assassino!”. O
homem de negro apareceu do ar como uma águia e arrancou-lhe
a criança das mãos. Adasevic acordou com o coração aos
saltos. Quando amanheceu foi marcar consulta num psiquiatra.
Decidiu que nessa noite
tentaria falar ao monge de negro. E assim fez. Perguntou-lhe
quem era, ao que aquele respondeu: “O meu nome não te diz
nada”. Adasevic insistiu, e ouviu então: “Chamam-me Tomás de
Aquino”, um nome que na altura realmente desconhecia. “E
porque não perguntas quem são estas crianças?”
-
continuou -
“Não os conheces? Eles conhecem-te muito bem: são as
crianças que mataste pelo aborto.” O médico lembrou-se então
com quem eram parecidas as crianças que lhe parecera antes
reconhecer nos sonhos: um dos rapazes e duas raparigas eram
muito parecidos com amigos seus aos quais fez abortos.
Quando acordou, decidiu que nunca mais faria nenhum aborto.
Mas ao chegar ao hospital
nessa manhã, tinha à sua espera um primo com a sua mulher,
no quarto mês de gravidez. Tinham operação marcada e não
aceitaram que não os “ajudasse”
-
afinal era da família. Como um autómato, o ginecologista
começou o aborto. Quando a certa altura tirou a pinça, tinha
à sua frente uma pequena mão. Depois da mão, uma perna. Com
os nervos em franja, o médico decidiu moer dentro do útero o
que restava. E convencido de ter apenas a extrair uma massa
informe, distinguiu na ponta da pinça um pequeno coração,
com as últimas pulsações ainda visíveis. Nesse momento,
Adasevic perdeu os sentidos. Quando recuperou a consciência,
percebeu que a sua familiar estava em perigo, a esvair-se em
sangue. Conseguiu evitar-lhe a morte, mas percebeu nesse dia
de 1988 que tinha morto com as suas mãos milhares de seres
humanos, como matara há momentos a criança dos seus primos.
A missão do monge
O homem que tinha conseguido
ser conhecido em toda a Belgrado como o melhor especialista
em abortos, viu as portas todas fecharem-se quando disse no
hospital que nunca mais faria nenhum. Para Stojan Adasevic
começaram tempos difíceis: foi acusado de sabotador,
cortaram-lhe metade do salário, a filha foi despedida e o
filho não foi admitido na universidade. Os ataques
sucediam-se nos meios de comunicação social. Graças a uma
iniciativa sua, no princípio dos anos noventa o parlamento
jugoslavo aprovou uma nova lei que protegia a vida dos
não-nascidos. Mas o presidente Slobodan Milosevic não a
assinou e depois deflagrou a guerra. Hoje na Sérvia a
maioria dos abortos é praticada em clínicas privadas. A lei
em vigor permite fazer o aborto até no nono mês de gravidez.
Adasevic cita a Madre Teresa de Calcutá: “Se uma mãe pode
matar um filho seu, que nos impede, a mim e a ti, de nos
matarmos um ao outro?”.
Vindo de uma tradição
ortodoxa, o ginecologista sérvio nunca tinha ouvido falar de
Tomás de Aquino. Há pouco tempo começou a ler as obras do
santo católico, tentando descobrir porque razão apareceu nos
sonhos que mudaram a sua vida. Encontrou a explicação nos
textos em que aquele escreve que a vida humana tem o seu
princípio quarenta dias após a concepção, no caso de um
embrião masculino, e oitenta dias depois, no caso de um
embrião feminino: “Estou convencido que aquilo que Tomás de
Aquino escreveu, não o deixa estar em paz lá onde se
encontra. E ainda bem, pois graças a isso veio intrometer-se
no meu caminho”.