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8 Nov 04
O "Case Study"
Buttiglione (1)
Por MÁRIO PINTO
Não é para mim
uma questão muito importante que A ou B, por
serem católicos, sejam ou não comissários na
União Europeia. Devo dizer com toda a
franqueza que, ao longo da minha vida, já
tenho tido grandes desgostos com políticos
católicos e justas alegrias com políticos
não católicos.
Porém, o caso
Buttiglione não foi apenas um caso político
parlamentar, como alguns querem fazer
passar. Porque esteve irrecusavelmente em
causa saber se um "católico conservador e
amigo do Papa" (por sinal Papa já
distinguido pela defesa dos direitos
humanos) é digno de confiança para
comissário encarregado da defesa dos
direitos fundamentais e do princípio da não
discriminação, independentemente das suas
declarações em comissões parlamentares e do
seu programa político.
De nada serviu
que Buttiglione, acusado de ter dito que a
homossexualidade é um pecado, tivesse
respondido que uma coisa é a moral, outra
coisa a legalidade; e que dizer que a
homossexualidade é (moralmente) pecado não
significa dizer que seja (juridicamente)
ilícito. De nada serviu declarar que defende
o princípio da não discriminação. De nada
serviu explicar que o seu conceito de
casamento não afecta o exercício das suas
funções. De nada serviu que tivesse afirmado
expressamente que sempre tem defendido a
Constituição europeia, que a considerava
apoiada nos direitos humanos de acordo com
uma evolução que vinha já da filosofia
grega, passando pelo cristianismo e pelo
iluminismo até ao ponto actual. E que estava
por isso disposto a cumprir e fazer cumprir
essa Constituição. Nada! Eu tive o escrúpulo
de ler na íntegra as actas das comissões,
que quem quiser pode obter com facilidade.
2. Bem sei que
pessoas ilustres, por quem tenho
consideração, vieram entre nós declarar em
público que este episódio devia resumir-se a
um acto parlamentar de confiança política -
portanto, questão de maioria parlamentar,
questão política. E que outros acharam que
Buttiglione poderia ter omitido as
formulações correspondentes às suas
convicções pessoais - portanto, questão de
fórmulas.
Respondo que
estes argumentos não convencem. Pois se as
convicções pessoais expressas e as
formulações utilizadas foram decisivas para
a decisão da Comissão, como é que agora nós
as poderemos deixar de lado para apreciarmos
a decisão da Comissão? Buttiglione foi
directamente interrogado acerca das suas
opiniões sobre o casamento e sobre o
princípio da não discriminação. E ainda
sobre declarações suas anteriores. Ele
respondeu (e aliás com superior qualidade,
em minha opinião) a tudo o que lhe
perguntaram, e não acrescentou nada para
além do que lhe perguntaram. Com base no que
respondeu, nunca poderia ser considerado
indigno de confiança.
3. Em vez de
as análises dos debates se aterem aos textos
oficiais das comissões, fez-se correr uma
campanha orquestrada internacionalmente. Na
Internet, o conhecido motor de busca que
usei, o Google, deu-me há dias 95.800
"sites" para Rocco Buttiglione. Abri-os até
170. Desisti. Eram esmagadoramente uma
acusação insultuosa contra o famigerado
comissário "católico conservador e amigo do
Papa". Hoje, quarta-feira, o número de
"sites" do Google já é de 130.000. E
aparecem muitas opiniões indignadas pela
exclusão de Buttiglione. Mas agora... Inês é
morta!
Até o prof.
Prado Coelho, por quem tenho estima e
apreço, embora com grandes divergências,
tratou assim o prof. Buttiglione na sua
coluna no PÚBLICO: "Sabem certamente quem é
Buttiglione? Trata-se de uma curiosa
personagem, ao que parece muito próxima do
Vaticano. E ao mesmo tempo de um professor
universitário." Para quem é doutor nas
ciências da linguagem, excelente escritor e
crítico literário, vê-se logo que Prado
Coelho desenhou assim uma imagem caricatural
e quase ridícula de Buttiglione. Com efeito,
é injusto apoucá-lo como uma "curiosa
personagem". Ser "amigo do Papa" é
irrelevante para o caso. E dizer que é...
"ao mesmo tempo professor"... é um tanto
malicioso e presta-se a muitas ambiguidades.
Buttiglione é
um professor digno, culto e poliglota
excepcional. Exprime-se com notável
qualidade de saber e de elegância. Mostrou
excelente conhecimento dos "dossiers" e das
questões europeias. Pede meças aos nossos
deputados. Respondeu directa e imediatamente
aos que o interrogaram falando em várias
línguas, conforme a sua nacionalidade:
italiano, francês, inglês e alemão.
Exprimir-se assim numa ocasião de
interrogatório difícil, e não em conversa
informal, é digno de nota. Não foi essa
capacidade posta a crédito do comissário
Vitorino? E de Barroso? Então por que é
regateada a Buttiglione?
4. O escândalo
contra Buttiglione é feito de ignorância e
facciosismo. Ele mostrou que sabe muito bem
separar as suas convicções pessoais da
autonomia e legitimidade da esfera pública.
Quando Buttiglione explicou que a palavra
latina matrimónio tem na origem um sentido
de protecção da maternidade, "matrimonium",
isso é verdade e só o não sabe quem é
ignorante. Ele (e eu também) pensa que esse
sentido é essencial (embora não exclusivo) e
deve ainda hoje valer, no novo contexto da
cultura e da civilização actuais. Porque um
simples contrato de vida em comum entre duas
pessoas homossexuais é outra coisa que não
matrimónio, porque não tem a função natural
de gerar e criar filhos. Esse contrato pode
merecer protecção em nome da liberdade e
legítimos interesses reconhecidos às partes;
mas não tem a mesma natureza e relevância de
interesse público, porque não tem
exactamente os mesmos fins - faltam-lhe os
fins naturais da procriação. O que sobretudo
dá importância maior à instituição do
casamento heterossexual e monogâmico, e
exige estabilidade e exclusividade, é a
geração e a criação dos filhos - embora esta
não seja a única finalidade do matrimónio.
Ao longo dos séculos, a sociedade sempre
esteve altamente preocupada com a protecção
da maternidade e da criação das crianças:
esse interesse é comum de toda a sociedade e
tem carácter público; não é apenas interesse
das partes casadas. Mais: são impostos aos
cônjuges (sujeitos do mesmo jugo) direitos e
deveres fundamentais em nome dos nascituros
e crianças, e servindo o interesse da
sociedade pela reprodução e criação de novos
seres humanos, interesse que vai muito para
além do que seria necessário se as partes
fossem apenas sócios de uma sociedade de
vida comum e relação sexual recíproca, sem
função reprodutiva. Se a sociedade se
organizasse agora na base do casamento
homossexual, só duraria a presente geração.
Isso não é evidente? E se se organizar na
base duma plena igualdade de casamentos,
quando só os heterossexuais podem gerar, há
uma evidente assimetria igualando coisas com
fins desiguais - e não basta que os
homossexuais queiram adoptar crianças,
porque se querem adoptar crianças estas só
podem ser os filhos dos heterossexuais. Isto
pelo menos enquanto se não separar a geração
da relação heterossexual. Se um dia a
geração vier a ser questão de laboratório,
então a coisa muda, e será seguramente
dramático. Entretanto, como Buttiglione bem
frisou, a definição do que é casamento é da
competência dos Estados nacionais, e não da
União Europeia; e em 22 dos 25 Estados
membros só o casamento heterossexual é
reconhecido.
Outro dia vi
na televisão uma notável reportagem de uma
gentil senhora americana, bonita, saudável e
muito harmoniosa de corpo (qualidades que a
reportagem expressamente enunciou), que
vendia por alto preço os seus óvulos para
reprodução de filhos comprados por outros
casais. Pagavam-lhe muito caro - dizia ela.
E parecia muito contente da vida. Não foi
porém muito esclarecedora, e até se lhe
toldou o semblante visivelmente, quando lhe
perguntaram se nunca pensava na quantidade
de bebés que eram seus filhos biológicos e
que ela não conhecia. Chegada aqui,
faltou-lhe a alegria com que até ali tinha
falado.
5. Já vou
longo e não esgotei o assunto. Prometo
continuar, até porque não acabei a resposta
para que o prof. Prado Coelho me desafiou.
Professor da Universidade Católica
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