Quem é
Rocco Buttiglione
Nascido em
1948, Rocco Buttiglione formou-se em direito
e filosofia. Exerce o cargo de Professor
universitário em várias universidades
italianas e estrangeiras com
responsabilidade na área do direito, da
ciência política e da filosofia.
Foi membro do
parlamento italiano a partir de 1994 e
eleito ao Parlamento Europeu em 1999. Em
2001, foi Ministro dos Assuntos Europeus do
governo de Silvio Berlusconi.
É casado e pai
de 4 filhos. Fala 7 línguas correntemente.
A
tensão prévia
Tal como
outros candidatos a Comissários (casos de
Kroes, Udre e Fisher Boel, pelo menos) havia
já alguma tensão prévia relativamente à
inclusão de Buttiglione no elenco da
Comissão Europeia.
Alguns sugerem
que os detractores estavam animados por uma
lógica de política nacional (esquerda
italiana contra Berlusconi), outros por
motivações de lobbies diversos devido às
posições conservadoras (conhecidas) do
candidato. No entanto, em plena audição a
questão mais delicada centrava-se na questão
do asilo e do acolhimento de imigrantes.
O assunto não
era estranho às tentativas de acordo que
surgiram na altura entre a Itália e a Líbia
mas foram exacerbadas por dois factos:
- a "invasão"
de Lampedusa (uma pequena ilha italiana onde
desembarcaram navios carregados de
imigrantes ilegais vindos do outro lado do
Mediterrâneo);
- o
acolhimento favorável por parte de
Buttiglione, no Conselho e em declarações
públicas posteriores (enquanto ministro de
Berlusconi) da proposta do seu colega
alemão, o ministro Otto Schily relativamente
à criação de centros de refugiados no
exterior da U.E. (campos de triagem de
candidatos à imigração ou ao asilo,
rapidamente baptizados pelos seus opositores
de "campos de concentração").
A meu ver a
aceitação por parte do Buttiglione da
complexa e indesejável proposta de Schily
foi uma imprudência. Ainda que ela
correspondesse ao interesse italiano
(particularmente reavivado pela "invasão" de
Lampedusa), Buttiglione já era candidato a
um posto europeu, onde deve responder pelo
interesse comum e não de alguns
Estados-membros.
Mas é
verdadeiramente hilariante ver a esquerda
europeia atacar Buttiglione por apoiar uma
proposta avançada e defendida pelo ministro
alemão socialista.
Talvez também
por isso o ataque da esquerda a Buttiglione
não se centrou nesta questão mas em
declarações que ele não proferiu no sentido
que lhe foram atribuídas publicamente como
mais à frente se verá.
Erros de
tradução ou manipulação deliberada?
Vieram a
público excertos de declarações que
efectivamente não foram produzidas.
As declarações
integrais de Rocco Buttiglione podem aqui
ser consultadas na versão original ou na
tradução inglesa.
Curiosamente,
o único momento de tensão que ocorreu
durante as 3 horas de audição nunca foi
referido em nenhum órgão de comunicação
social (veja mais à frente "A Pergunta
Crucial").
Foram,
sobretudo três as afirmações "infelizes"
atribuídas a Buttiglione. As duas primeiras
são grosseiras mistificações. A terceira foi
produzida em Itália e só a posso avaliar
pelos relatos da imprensa internacional.
Primeira -
As mulheres devem ficar em casa
Atribui-se a
Buttiglione a afirmação que as mulheres
devem ficar em casa a ter filhos
negando-lhes a possibilidade de uma carreira
profissional, cabendo ao homem trabalhar e
prover o sustento da família. Perguntado
sobre o que achava do casamento entre
pessoas do mesmo sexo, Rocco Buttiglione
referiu-se à origem semântica da palavra "mariage"
(casamento heterossexual) e sublinhou que
essa não era uma questão política.
Buttiglione:
"A minha opinião pessoal é conhecida. A
palavra casamento (mariage) vem do latim "matrimonium"
que significa "protecção da mulher". Assim a
família existe para permitir à mulher a
protecção de um homem de forma a que ela
possa ter filhos e todos sejam apoiados.
Esta é a imagem tradicional do casamento que
eu defendo. Não penso porém que esta questão
seja relevante para a nossa área (Área da
Liberdade, Segurança e Justiça, em audição)
porque a definição de casamento é
competência dos Estados-Membros.
Portanto
pense eu o que pensar, isso não tem nenhuma
consequência e embora esta seja a visão
partilhada hoje por 22 dos 25
Estados-Membros, esta não é uma matéria da
União e não deve tornar-se numa competência
da União. Deve continuar a ser competência
dos Estados-membros de acordo com o
princípio da subsidiariedade".
Segunda -
Os homossexuais são pecadores
Atribuiu-se a
Buttiglione uma intolerância grave contra os
homossexuais considerando-os pecadores, daí
desqualificando-o como comissário encarregue
da luta contra a discriminação. Com efeito
Buttiglione, em declarações públicas há
alguns anos atrás, tinha-se referido à
homossexualidade como um pecado, uma
"desordem moral" . Na audição porém,
foi claro ao citar Emmanuel Kant
estabelecendo uma clara distinção entre a
lei e a moral, respondendo à Deputada
Buitenweg (Verde, Holandesa).
Buttiglione:
"Há muitas coisas que podem ser
consideradas imorais que não devem ser
proibidas. Quando estamos na política não
renunciamos ao direito de ter convicções
morais e eu posso pensar que a
homossexualidade é um pecado sem que isso
tenha qualquer efeito político a menos que
eu queira invocar que a homossexualidade
deva ser um crime. Na mesma linha, a Senhora
Deputada é livre de pensar que eu sou um
pecador em diversos aspectos da minha vida e
isso não afecta a nossa relação enquanto
cidadãos. Não creio que seja razoável
presumir que toda a gente está de acordo em
questões de moral.
Podemos
construir uma comunidade de cidadãos mesmo
que tenhamos diferentes opiniões em questões
de moral. A questão importante é, porém, a
não discriminação. O Estado não tem o
direito de se envolver nestes assuntos e
ninguém pode ser discriminado com base no
seu sexo ou na sua orientação sexual. Esta é
uma garantia da Carta Europeia dos Direitos
Fundamentais, está inscrita na nossa
Constituição e eu comprometo-me a defender
esta Constituição".
Terceira:
As mães solteiras são más mães
A semana que
se seguiu às audições foi de grande alarido
na comunicação social. Não apenas pela
interpretação dada às afirmações que acima
se reproduziram ou à divulgação pública de
um voto de rejeição que nunca existiu (ver
"um voto que nunca existiu") mas também com
excessos de linguagem que comportaram um
alto nível de agressividade.
Não ajudaram
em nada as afirmações públicas de um membro
do Governo de Berluscconi, o Ministro Mirko
Tremaglia de 78 anos que acusou a maioria
dos deputados europeus de serem
"maricas" (com uma palavra mais forte,
em italiano "culattoni" ). Na
sessão plenária de 14 de Outubro dezenas de
deputados da esquerda ostentaram cartazes em
que se podia ler "Siamo culattoni"
para gáudio de muitos outros o que veio
acentuar um ambiente de pantomina a um
debate que se queria sério e sereno.
Entretanto,
Rocco Buttiglione foi acusado de ter dito
que as mães solteiras são más mães.
O contexto foi
uma vez mais completamente diferente.
Aparentemente, numa conferência sobre as
relações transatlânticas, Buttiglione terá
usado metáforas mitológicas para insinuar
que enquanto os Estados Unidos são filhos de
Marte (o Deus da guerra), a Europa seria
filha de Vénus e defendeu uma união dos dois
porque os filhos devem ter pai e mãe.
De nada valeu
ao Comissário indigitado protestar
publicamente o respeito pelas mães que
sozinhas assumem a responsabilidade de criar
os seus filhos (em concordância lógica com a
sua recusa do aborto).
A frase
efectivamente pronunciada deve ter sido
infeliz e retirada do contexto foi mortal.
Nos corredores do Parlamento Europeu a
última frase foi incendiária e as "single
mother" (tanto mãe solteira, como mãe
sozinha, divorciada ou viúva) expressaram-se
ruidosamente. A candidatura de Buttiglione
terminou aí...
A pergunta
crucial
Durante toda a
audição houve, na minha opinião, apenas um
momento verdadeiramente tenso.
Foi
protagonizado pelo Deputado Cashman (Inglês
socialista). Depois de várias declarações
claras de Buttiglione em favor do combate às
discriminações, Cashman disse "não creio
que o devamos julgar pelas suas palavras mas
antes pelas suas acções. Disse-nos hoje que
o Estado não tem o direito de se envolver
nas questões que têm a ver com a orientação
sexual. Como explica então que tenha
apresentado, na Convenção para o Futuro da
Europa, uma proposta que visava eliminar da
Constituição a referência à orientação
sexual no combate às discriminações?"
Foi um gelo na
sala.
O único
momento em toda a audição em que se sentiu
verdadeiramente a tensão.
Uma coisa eram
declarações avulsas sobre "desordens
morais" outra era uma militância activa
contra os homossexuais.
Independentemente das motivações íntimas (e
que não é possível desvendar) de Buttiglione
quando apresentou a proposta, a explicação
jurídica foi clara e o compromisso com o
texto da Constituição irrefutável:
Buttiglione:
"Quando definimos o princípio da não
discriminação, não pretendíamos que ele
fosse aplicado apenas num número limitado de
casos que estavam enumerados. O princípio é
universal. Deve ser aplicado em muitas e
variadas áreas e não creio que constituísse
um reforço para a sua aplicação referir em
especial o caso dos homossexuais.
Mas em
qualquer circunstância, esse debate está
encerrado. Não tenho dúvidas que se o Senhor
Deputado Cashman a tivesse escrito sozinho
teríamos uma Constituição ou uma Carta dos
Direitos Fundamentais diferente. E se fosse
eu a fazê-lo teríamos também uma Carta e uma
Constituição diferentes. Mas esta é a
Constituição que escrevemos em conjunto e
esta é a Constituição que nos liga, sob a
qual estou disposto a viver e esta é a Carta
dos Direitos que eu quero defender".
Um
voto que não existiu
Uma das
afirmações mais repetidas pela imprensa foi
a que o Parlamento tinha rejeitado
Buttiglione e que essa era a consequência
das audições realizadas.
Também aqui
houve uma grande mistificação. Com efeito o
Parlamento não tem o poder de aprovar ou
recusar cada Comissário individualmente. O
Parlamento aprova ou recusa a Comissão no
seu conjunto e para esse debate contribuem
os relatórios que as comissões produzem
sobre as audições.
Ora, nas
cartas que o Presidente do Parlamento
Europeu recebeu e que remeteu a Durão
Barroso, havia duas com conteúdos opostos (o
Comissário indigitado Buttiglione respondeu
em audições diferentes perante a Comissão
das Liberdades Públicas e a Comissão de
Assuntos Jurídicos). Enquanto que a Comissão
dos Assuntos Jurídicos recomendou o
candidato ver carta aqui a das Liberdades
Públicas deu um parecer negativo ver carta
aqui.
Não é pois
possível afirmar seriamente que o Parlamento
"chumbou" Buttiglione. Em bom rigor, o
Parlamento "empatou" com uma posição
favorável e outra desfavorável.
Mas o mais
surpreendente é que a posição "desfavorável"
da Comissão de Liberdades Públicas não
correspondeu a nenhuma deliberação, mas tão
só a uma "interpretação" do seu Presidente o
francês liberal Bourlanges.
Com efeito,
foram apresentadas duas propostas de sentido
oposto e ambas foram rejeitadas. Com 27
votos contra e 26 a favor, foi rejeitada uma
proposta do PPE que apoiava a designação de
Butigglione e com 28 contra e 25 a favor foi
rejeitada a proposta socialista que recusava
Buttiglione para a pasta da Justiça e
Assuntos Internos (embora o aceitasse como
Vice-Presidente da Comissão Europeia).
A aludida
recusa de Buttiglione corresponde assim a um
voto que não existiu. A Comissão de
Liberdades Públicas não votou a recusa a
Buttiglione, porque rejeitou ambas as
propostas. Na verdade, a Comissão de
Liberdades Públicas não foi capaz de tomar
uma deliberação, ao contrário da Comissão
Jurídica que "aprovou" o comissário
indigitado, mas a leitura publica foi a de
que o "Parlamento Europeu rejeitou Rocco
Buttiglione".
No dia 27 de
Outubro o plenário do Parlamento Europeu
devia votar a investidura da Comissão.
Quando ninguém esperava, Durão Barroso, numa
iniciativa inédita retirou a sua proposta de
elenco da Comissão Europeia para a repensar
em conjunto com os governos dos
Estados-Membros.
Porque é que
Durão Barroso deu provas de apreciável
flexibilidade e engenho?
Porque
constatou, nos contactos com os grupos
políticos, a total divisão do Parlamento
Europeu.
Segundo
alguns, corria o risco de perder, segundo
outros (mais informados) o mais provável
seria ganhar mas numa eleição renhida e
eventualmente graças aos votos embaraçosos
de proeminentes figuras da extrema-direita
europeia.
Ambas as
situações seriam indesejáveis.
Com efeito, o
processo de decisão comunitário assenta no
compromisso de forma a conciliar os
diferentes interesses nacionais e as
diversas posições políticas.
Seria frágil a
posição de uma comissão enfraquecida com a
hostilidade de metade do hemiciclo.
Foi prudente e
politicamente inteligente a iniciativa do
Durão Barroso. E dela resultaram a
substituição dos Comissários indigitados -
Buttiglione por Frattini e Udre por Piebalgs
e a troca de pelouro do húngaro Kovács que
se revelou totalmente incompetente nas
questões de energia para que inicialmente
tinha sido apontado.
Teria sido
preferível a substituição do Sr. Kovács mas
a intransigência do governo húngaro que
insistiu em manter um candidato
desqualificado não o permitiu.