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Manuel Brás
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24 Nov 04
PSD: o elo
mais fraco?
De
quinze em quinze dias tem que haver um
folhetim. Se puder dividir e enfraquecer a
coligação governamental, melhor ainda.
O
folhetim escolhido é mais um número de
ilusionismo legislativo sobre o aborto. Este
truque tem provado ser aquele que mais
eficazmente divide a coligação e semeia a
confusão e a perplexidade nos espíritos
pouco convictos de muitos deputados do PSD,
que já estão por tudo, ao ponto de assinarem
de cruz os projectos do PC, vá-se lá saber
porque dívida de gratidão. Ou será que,
simplesmente, o PSD é uma coutada da APF?
Sendo o PSD um partido mais dividido e menos
coerente nestas matérias, os partidos
ideologicamente abortistas alimentam, com
razão, a expectativa de que o PSD seja o elo
mais fraco da corrente que, presumem, há-de
partir a favor deles. O facto é que, sempre
que se fala em liberalizar o aborto, há um
grupo de deputados do PSD dispostos a
alinhar com o PS, PC ou BE.
A
presunção desses deputados é que, se não
corresponderem ao lobby abortista,
perdem votos. Mas, quais votos? Por acaso,
quem é favorável ao aborto vota no PSD? Onde
é que votam aqueles 1,4 milhões de eleitores
que rejeitaram no referendum a
liberalização do aborto? No PS? No PC? No
BE? Onde é que votam os 216 mil signatários
de uma petição em favor da família e da vida
entregue na AR no princípio de Março?
Petição que, em cinco semanas, recolheu mais
assinaturas que as 121 mil que os
partidários do aborto recolheram em cinco
meses ou mais.
Onde é que está a prova de que a maioria dos
portugueses quer a liberalização do aborto,
senhores deputados do PSD? Não estarão a
confundir os interesses da maioria dos
portugueses com os vossos?
É
muito mais provável que as hesitações e
transigências – pusilanimidade, afinal de
contas – nesta matéria façam com que as
perdas sejam maiores do que os ganhos. E que
a população provida tenda cada vez mais a
votar cada vez menos no PSD. Foi o que
aconteceu nas europeias. Os candidatos do
PSD serão sempre compelidos a pronunciar-se
sobre esta matéria. As suas posições serão
publicamente conhecidas.
Tudo isto vem a propósito de um número de
ilusionismo legislativo no qual alguns
deputados do PSD foram convidados a
participar: a famosa suspensão de pena para
pessoas envolvidas em actos abortivos
ilegais, sobretudo – isto é o mais espantoso
– os profissionais de saúde, como se
não soubessem o que fazem e não o fizessem
deliberadamente.
Não quererão também suspender a pena para
evasões fiscais, tráfico de droga, violação,
roubo, etc...? É que é uma grande humilhação
ir a tribunal...
O
mais curioso no meio disto tudo é verificar
como, na prática, os deputados, desde o BE a
quase todos os do PS e muitos (demais) do
PSD, acabam por pensar exactamente o mesmo
nesta matéria. Isto sim, é originalidade.
Não vale a pena anatematizar o PC. Aquilo é
mesmo assim. Outra coisa até lhes faria mal.
O cancro está na bancada laranja.
Será desta que o
PSD é o elo mais fraco? |