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Diário de Notícias
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25 Nov 04
Debate:aborto
Queremos
provocações ou propostas?
António Pinheiro Torres
Deputado do PSD Dizia Lenine que «a
burguesia fabrica as cordas com que se há-de
enforcar»…
A frase ocorre-me quando constato o
autêntico atentado à democracia que
resultaria da eventual aprovação pelo
Parlamento da mais recente proposta do PCP
em matéria de aborto.
O projecto dos comunistas, recorde-se,
consiste no seguinte: até à próxima
legislatura, suspendiam-se todos os
inquéritos criminais e processos judiciais
em curso (e não se iniciariam novos)
relacionados com a prática de crime de
aborto.
Ou seja, em termos práticos, a lei actual
deixaria de vigorar (e numa cumplicidade
objectiva com a «indústria do aborto» mesmo
em relação àqueles «profis-sionais» que
vivem da sua prática!).
Ora, como é fácil de se ver, esta proposta é
um absurdo jurídico e político. Um absurdo
jurídico porque não se pode, nos termos da
Constituição, suspender leis que garantem
direitos, liberdades e garantias.
Um absurdo político porque o povo português
quando chamado a pronunciar-se em referendo
sobre a Lei do Aborto, decidiu-se contra a
respectiva alteração. Em consequência
pronunciou-se pela sua aplicação. Senão de
que valeria tê-la ratificado?
Mas não foi apenas em referendo que o povo
já manifestou a sua vontade. Voltou a
manifestá-la e no mesmo sentido quando votou
no PSD (que se comprometeu pela voz do seu
líder de então a não modificar a lei senão
por referendo e nunca nesta legislatura),
quando votou PS (que também declarou pela
voz de Ferro Rodrigues que só por referendo
a lei poderia ser modificada), quando votou
PP (esta parte nem carece de explicação) e
até mais recentemente quando 217 mil
cidadãos (em quatro semanas) subscreveram a
petição Mais Vida Mais Família,
entregue a 1 de Março na Assembleia da
República (até hoje ainda não foi
discutida).
Uma petição diferente (favorável a um
referendo) recolheu apenas 122 mil
assinaturas, recolhidas em seis ou oito
meses, com uma exaustiva cobertura da
comunicação social…
Demonstrado que está que ao PCP, com uma
habilidade marxista-leninista, o que
interessa é semear a confusão, importa
perceber que o aborto é um problema real que
merece uma resposta adequada.
E neste campo a sociedade civil tem vindo,
desde sempre, mas em especial desde 1998, a
abrir um caminho que dá frutos e demonstra
que não é uma inevitabilidade, deixar uma
mãe sozinha perante a sua gravidez.
Contam-se já em dezenas as associações que
se dedicam ao acolhimento de grávidas e
crianças, à formação em sexualidade e
planeamento familiar, a manter linhas
telefónicas de apoio.
Pelo seu nome conhecemos essas mulheres que
nos procuraram e já são muitas as crianças
nascidas por causa desse apoio que temos
segurado nos nossos braços.
Neste ponto o desafio político está na
ousadia do Estado, que deveria ser capaz de
proclamar «que não se encontre, nas nossas
cidades, nenhuma mulher que diga: eu fiz um
aborto porque não encontrei quem me
ajudasse!».
Com um pequeno esforço orçamental era
possível em brevíssimo tempo abrir uma rede
nacional de centros de apoio à vida,
«subcontratada» na sociedade civil que fosse
o contraponto do reflexo penalizante da Lei
do Aborto.
Também daria primeiras páginas dos jornais e
desta vez não seria por causa de disparates
que se destinam apenas, entre outras razões,
a provocar crises na maioria…
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