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UM OLHAR HISTÓRICO
SOBRE A CULTURA DA VIDA
EM PORTUGAL
Antes de mais,
queria dizer que de facto é difícil fazer uma palestra a dois e é só
por essa razão que estou aqui sozinha, pois de facto tudo o que digo
aqui, e tudo o que faço, faço-o a meias com o meu marido com quem
partilho todas as preocupações, orações e trabalhos pela Vida.
Queria começar por contar uma história.
Em 1997, julgo que em Janeiro, houve uma fortíssima investida a
nível parlamentar contra a Vida: tentava-se liberalizar, já então, o
aborto a pedido.
Nessa altura, muitos católicos reuniram-se numa Vigília de Oração na
Basílica da Estrela. Os resultados foram estranhos: numa primeira
contagem foi comunicado que a liberalização do aborto tinha ganho
por um voto, momentos depois anunciaram que tinha havido um erro e
que era preciso refazer a contagem. A Vida tinha vencido por um
voto!
Foi, evidentemente, uma enorme alegria. Mas ficou claro para muitos
que as tentativas abortistas não ficariam por ali.
Em conversa sobre isso, e sem sabermos muito bem o que fazer perante
esta perspectiva, um pequeno grupo de amigos que se tornariam
grandes companheiros de trabalho, pensaram: “E se fossemos em
peregrinação a pé a Fátima, em casal, dado que os casais são os
naturais dadores de vida, para pedirmos instruções a Nossa
Senhora?”. E assim nasceu a primeira peregrinação de casais “Com
Maria Pela Vida” (acabámos agora de chegar da 17ª, pois em 9 anos
têm-se multiplicado!).
Em Abril desse ano partimos: 14 casais acompanhados pelo Pe. Eduardo
Aguirre, do Movimento Apostólico de Schoenstatt, e pelo Pe. Nuno
Serras Pereira, Franciscano, com o objectivo fundamental de rezar
pela Vida, e de nos pormos ao serviço da nossa Mãe nesta luta que é
Sua.
Daqui viriam a sair inúmeras ideias e iniciativas muito práticas,
mas mais do que tudo sentimos no coração que Maria nos dizia: “É
preciso pôr Portugal de joelhos a rezar!”. Por isso, consideramos
que a Corrente de Oração Pela Vida foi e é uma iniciativa de Nossa
Senhora.
Apesar de todos rezarmos, fomos nós e o António e a Margarida
Correia de Oliveira quem assumiu a organização deste movimento.
Desde logo, começámos a estabelecer contactos, pedindo também oração
às Congregações Religiosas e a vários movimentos católicos, e, mais
tarde, às Igrejas Protestantes, através da Aliança Evangélica.
Em Julho desse ano, iniciámos os encontros em Lisboa, na Capela do
Bom Sucesso.
Enviámos cartas para todas as paróquias de Portugal pedindo que
rezassem connosco. Propúnhamos uma hora mensal de Adoração do
Santíssimo Sacramento, e oração do Terço com meditações alusivas à
causa da Vida que enviávamos também; e ao longo dos meses fomos
vendo a corrente de oração crescer alargando-se a todo o País. Mais
de 100 paróquias fizeram, e algumas fazem ainda, Oração Pela Vida
segundo o nosso guião, e mantém contacto regular connosco, mas
sabemos de muitos outros locais que se uniram a esta iniciativa,
especialmente na fase anterior ao referendo de 1998.
Entretanto, todos os que tinham ido àquela primeira peregrinação, e
muitos mais, dedicavam-se com enorme empenho à causa da Vida,
trabalhando com mulheres em risco, fundando casas de acolhimento
para bebés, e depois preparando o referendo. A maioria das pessoas
não sabe à custa de quantos sacrifícios tudo isto foi possível:
jovens pais de família contraíram em nome pessoal pesadíssimos
empréstimos que levaram anos a pagar, sei de um que tirou uma
licença sem vencimento para se poder dedicar a tempo inteiro a este
trabalho, de outro que ficaria depois no desemprego por muito tempo
por ter “dado a cara” claramente a favor da Vida. Houve verdadeiros
heróis na luta pela Vida duma forma totalmente anónima e discreta.
E no entanto, a diferença de meios era tal que humanamente tudo
parecia perdido: a máquina dos partidos que faziam da liberalização
do aborto uma bandeira política de especial importância, a
manipulação constante e quase unânime dos acontecimentos nos “mass-media”,
a falta completa de meios financeiros para fazer uma campanha, tudo
se conjugava para uma derrota que parecia, aos olhos de muitos,
inevitável. Uma semana antes do referendo, as sondagens (e hoje em
dias as sondagens não se enganam!) davam 60% ao “Sim” e 28% ao
“Não”. Só a Esperança, aquela esperança cristã que tem a certeza de
que tudo é possível e que Deus vencerá no final, nos mantinha numa
confiança inabalável.
No mês anterior ao referendo, tudo acelerou, a acção e a oração.
Propusemos encontros semanais de oração a partir de 14 de Maio, uma
novena a partir de 19 de Junho, e uma vigília na noite anterior ao
referendo.
Em Lisboa, esses encontros semanais fizeram-se em várias paróquias,
a novena na Capela do Bom Sucesso, e a vigília na Igreja de Santa
Maria de Belém (Jerónimos), na Sexta-feira anterior à votação.
Quando dissemos que íamos rezar nos Jerónimos, muitos acharam que
estávamos loucos. “Os Jerónimos nunca enchem”, diziam-nos. Nessa
noite, a igreja não albergava nem metade dos que gostariam de
participar! E o ambiente de fé, a força do Espírito, a presença de
Deus foram tais que muitos sentiram o mesmo que nós e nos vieram
dizer no final: “As nossas orações foram ouvidas, hoje Deus fez uma
reviravolta na História, a Vida vai ganhar!”
No dia do referendo, 28 de Junho de 1998, estivemos toda a tarde,
até ao fecho das urnas, na capela do Bom Sucesso, em acção de
graças. E depois, calmamente, sem sabermos nada do que se passava,
sem vermos a televisão onde os defensores do “Sim” cantavam vitória
desde o início, o Miguel e eu fomos jantar a dois, totalmente em
paz. Até que começaram a chover os telefonemas de amigos: “É
incrível, o impossível aconteceu, estamos a ganhar!”.
Sem querer entrar em definições teológicas, para mim foi um milagre,
o impossível aconteceu. Como eu digo sempre, a vitória foi de todos,
mas o que fez toda a diferença foi o voto de Nossa Senhora: 1 voto
no Parlamento em 1997, 1% no referendo de 1998, sempre só o
suficiente, para não nos deixar descansar e cruzar os braços.
Pedagogia de Deus, pedagogia de Maria, sempre boa Mãe, e grande
Educadora.
Deus deu-nos uma segunda oportunidade, e sem dúvida que nos era
pedido que trabalhássemos mais e rezássemos mais.
É verdade que nestes anos, muito trabalho, maravilhoso trabalho, tem
sido feito por múltiplas pessoas e associações de defesa da Vida,
mas infelizmente parece que simultaneamente assistimos a uma menor
adesão à oração.
Diz o Cardeal Suenens:
“Não ousamos acreditar naquilo que somos, isto é, no Cristo vivo e
activo em nós. Não ousamos acreditar na oração até ao milagre. É
necessário que os responsáveis pela doutrina, a todos os níveis, nos
ensinem de novo, e mais profundamente, o verdadeiro sentido da
oração, sempre eficaz segundo o pensamento de Deus; a natureza do
amor paternal de Deus, que é o Deus dos vivos e não dos mortos, que
não é a fonte do mal e que deseja o bem-estar integral dos seus
filhos; o sentido purificador e transformador do sofrimento aceite,
que Deus faz concorrer para o bem daqueles que Ele ama. É preciso
que a nossa oração assuma toda a complexidade do real (…). A nossa
oração deve abraçar tudo aquilo que tem necessidade de ser curado;
deve expor aos raios da graça de Deus todo o sofrimento humano,
tanto presente como passado. É preciso lembrar que Jesus era ontem
como é hoje; e que Ele é o Senhor tanto do passado como do presente.
(“A Renovação Carismática - Um Novo Pentecostes”, Cardeal Suenens)
Mas nestes tempos de competição e eficiência, os próprios católicos,
e muitas vezes os próprios sacerdotes, parecem esquecer ou
desconfiar da eficácia da oração. A acção directa e de resultados
imediatos, que é sem dúvida necessária e importantíssima pois Deus
quer as nossas mãos como instrumentos no mundo, impõe-se na
mentalidade ocidental. De tal modo que muitos católicos que se
dedicam, e bem, à solidariedade visível, esquecem o enorme poder da
solidariedade invisível presente na oração e no sacrifício por amor.
A Irmã Lúcia, nas suas memórias, conta um dos exemplos mais
flagrantes do oposto desta mentalidade actual de que falamos:
“ Quando, nesse dia, chegámos à pastagem, a Jacinta sentou-se
pensativa, em uma pedra.
- Jacinta! Anda brincar!
- Hoje não quero brincar.
- Por que não queres brincar?
- Porque estou a pensar. Aquela Senhora disse-nos para rezarmos o
Terço e fazermos sacrifícios pela conversão dos pecadores. Agora,
quando rezarmos o Terço, temos que rezar a Ave-Maria e o Padre–Nosso
inteiro. E os sacrifícios como os havemos de fazer?
O Francisco discorreu em breve um bom sacrifício:
- Demos a nossa merenda às ovelhas e fazemos o sacrifício de não
merendar!
Em poucos minutos, estava todo o nosso farnel distribuído pelo
rebanho. E assim, passámos um dia de jejum que nem o do mais austero
Cartuxo!”
(Memórias da Irmã Lúcia – 1ª Memória)
Para a maioria, este é o exemplo da “inutilidade” do sacrifício no
seu máximo esplendor. O jejum que não serve a ninguém! Nem sequer
houve uma lógica de solidariedade social, os Pastorinhos não
deixaram de comer para matar com o seu farnel a fome de algum
faminto, distribuíram o seu alimento pelas ovelhas simplesmente por
amor aos pecadores… e quantas almas terão convertido certamente com
este gesto!
Porque de facto cada um de nós está ligado a Deus, mas todos os
homens, no Céu e na Terra, estão também ligados entre si por uma
rede de amor. Uma rede espiritual que liga todos os seres humanos
uns aos outros, todas as orações umas às outras, e é por isso que
podemos rezar ou oferecer um sacrifício por uma pessoa que está do
outro lado do mundo, e que podemos rezar pelos que morreram, e
confiar na oração dos Santos que continuamente pedem por nós, porque
essa rede espiritual que nos liga a todos como irmãos não tem
barreiras de tempo ou espaço.
Mais uma vez, sem querer entrar no âmbito da Teologia, pois não
tenho habilitações para isso, mas partilhando a minha experiência
pessoal, posso dizer que confio na liberdade dos homens mas também
confio no poder da oração. Não consigo entender como é possível, mas
julgo que a nossa oração dá a Deus, que deseja o bem dos seus filhos
mas respeita infinitamente a liberdade de cada ser humano, a
possibilidade de intervir na vida daqueles por quem rezamos, porque
o nosso amor lhes abre o coração à Sua acção e à Sua Palavra.
Os laços que nos unem (aquela rede de transmissão que envolve o
Mundo e nos liga também ao Céu) são laços de amor. Quanto mais amor
tivermos mais unidos estaremos ao nosso irmão e mais facilmente
abriremos o seu coração à acção de Deus. É como se a nossa oração
afastasse a nuvem, e ao sentir o calor e a luz do Espírito o coração
se abrisse, tal como a flor se abre ao sol, permitindo a Deus agir.
A resposta verdadeira para o flagelo do aborto e para todos os
atentados contra a vida, está na oração, na penitência, na oblação
de nós próprios em actos aparentemente incompreensíveis para o
mundo, como o jejum, mas também na acção concreta de transformação
da sociedade que nos é pedida a todos.
Esta experiência de nove anos provou-nos não só o extraordinário
poder da oração, mas mostrou-nos também o seu poder pedagógico: a
petição pela Vida na oração universal na Missa é a catequese mais
simples e que mais toca o coração dos fiéis, a oração mensal por
esta causa aprofunda o empenho de todos. Quem reza pela Vida, é
levado a pensar nela, é educado para amá-la e respeitá-la, é
incentivado a agir em sua defesa.
Como disse no início, todos os peregrinos que começaram a rezar pela
Vida se tornaram grandes activistas na luta contra o aborto nas mais
variadas frentes.
Só para mostrar uma das muitas iniciativas que surgiram da oração,
gostaria de apresentar-lhes muito rapidamente o kit “Vidas com
Vida”.
O kit começou a ser feito por uma pequena equipa (o casal Ricciardi
com os seus filhos, nós e a Inês Monteiro), mas neste momento tem já
a ajuda de um sem-número de voluntários.
O nosso desejo é oferecer a qualquer pessoa que queira ajudar na
criação desta nova mentalidade, que mais que anti-abortista deve ser
amante da vida, um instrumento de trabalho positivo, cientificamente
impecável mas de fácil utilização, para fazer sessões de
esclarecimento, dar aulas, etc., e para poder ajudar de forma muito
concreta a encaminhar mulheres em situação de risco para associações
que possam dar resposta às suas dificuldades incutindo a esperança
necessária a uma decisão a favor da vida dum filho por nascer.
Gostaríamos de oferecer um kit “Vidas com Vida” a cada paróquia, a
cada escola, a cada associação, e propomos também um pequeno curso
de formação de formadores, de um dia ou uma tarde, para aqueles que
desejem tirar o melhor partido dos materiais e queiram passar de
forma bem estruturada e num tom correcto esta deslumbrante palavra
de Vida. Porque se impedir um bebé de nascer é impedir um sonho de
Deus de se realizar, ajudar uma mãe a dar vida ao seu bebé é ajudar
esse sonho a realizar-se!
Este é só um dos muitos projectos que tantos têm vindo a
desenvolver, e pedimos também a vossa oração pelos seus frutos.
Mas em conclusão, a mensagem final que gostaria de deixar é esta: a
eficácia da oração, do sacrifício e da acção será tanto maior quanto
maior for o amor que aí pomos.
A solução está, como sempre, em aprender a amar. É de facto esse o
maior mandamento, a missão que inclui todas as missões.
Thereza Ameal – 3 de Outubro de 2006
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