1. Num livro que
saiu recentemente,
tradução portuguesa
do primeiro volume
do famoso tratado de
Francisco Suárez "De
Legibus", pode
admirar-se o mérito
filosófico de um
ibérico famoso, que
verdadeiramente foi
um grande mestre da
escolástica tardia
(o "doutor exímio")
e um grande mestre
precursor da Idade
Moderna. Jesuíta
ilustre, foi
professor de
Coimbra, onde aliás
saiu a edição
original do referido
tratado. A
modernidade deve
também aos jesuítas
(Descartes foi
formado na escola
dos jesuítas e
estudou por Suárez);
jesuítas que, por
sua vez, devem
decisivamente à
escolástica; a qual
deve à patrística;
que deve à geração
católica apostólica
e à filosofia grega.
Até à modernidade,
os sábios e eruditos
reconheciam estas
dívidas sucessivas,
prova de liberdade
de espírito,
simultaneamente
admiração e crítica
do património de
pensamento herdado e
desejo de ir mais
além. Naturalmente
com episódios de
intolerância. O pior
deles foi a
Inquisição, uma
vitória do regalismo
em que uma parte da
Igreja chegou a
perseguir a outra
parte.
A própria
modernidade foi
aberta por
pensadores crentes,
dos mais ilustres.
Porém, na
modernidade rebentou
uma bolha de
intolerância
anti-religiosa que
não pode
esquecer-se. Com o
iluminismo
autoritário e o
republicanismo
radical, cheios de
soberba presunção,
houve períodos em
que o novo
pensamento tratou
mal os anteriores
(recorde-se entre
nós o ditador
Pombal; recorde-se o
republicanismo de
Afonso Costa, que
prometia
publicamente o
genocídio do
catolicismo em duas
gerações). A
democracia liberal
ocidental consagrou
as bases de
conceitos humanistas
de direitos e
liberdades pessoais,
os quais têm sido, e
espera-se que
continuem a ser, os
fundamentos de uma
civilização
universal de
liberdade,
igualdade,
fraternidade e paz.
Contudo, hoje o
pós-modernismo trata
mal a própria
modernidade e o
humanismo
naturalista. E o
chamado "pensamento
politicamente
correcto", que anda
na moda, está
lançando uma razia
contra tudo quanto
era dantes, numa
intolerante "fúria
fracturante". Com
uma significativa
cumplicidade
comercial dos
"media".
2. Tenho em mente o
apavorante episódio
contra Buttiglione,
no Parlamento
Europeu. Primeiro,
alguns deputados
bombardearam-no com
perguntas sobre as
suas convicções
pessoais sobre o
casamento e a
homossexualidade.
Como católico que é,
foi claro e
desassombrado,
expondo, afinal, a
doutrina da Igreja
Católica. Mas
esclareceu que essas
convicções não o
levavam a
criminalizar os
"pecados" pela não
observância da moral
cristã que defendia:
uma coisa são as
convicções
religiosas, éticas e
morais cristãs, que
ele pessoalmente
defende, outra coisa
é a política social
e cultural em
democracia, que
possui autonomia,
embora deva
respeitar o direito
natural (e, neste
combate cívico e
político, cada um
defende as suas
convicções com igual
legitimidade).
O alarido foi tal
que tomou forma de
campanha de
imprensa.
Distorceram-se as
declarações do
comissário,
caricaturando-as.
Foi evidente uma
manifestação de
fundamentalismo
laicista. Chegou-se
à ameaça de não
viabilidade da
Comissão.
3. Sucede que
partilho as
convicções católicas
de Rocco
Buttiglione, e
gostaria de saber se
isso é um
impedimento para o
exercício de funções
políticas
governativas (em
certas áreas... só
por enquanto). Não
que seja candidato,
mas só para saber
qual é o meu
estatuto cívico.
Isto é: a democracia
do século XXI não
excluiria ninguém,
por delito de
opinião, do
exercício dos seus
direitos políticos,
excepto os católicos
coerentes. Coerentes
são os que
livremente estão em
união (de
inteligência e de
vontade) com a
doutrina e a
autoridade da Igreja
- porque há muitos,
e até padres, que
fazem uma
administração
autónoma da doutrina
e se importam pouco
com os mistérios
(isto... digo eu).
Neste terceiro
milénio, o único
crime de opinião
seria então o de ser
católico; e a pena
correspondente a de
exclusão de funções
políticas por
suspeito em matéria
de direitos humanos.
Nunca, na Europa
ocidental do
pós-guerra, nenhum
comunista convicto
das suas convicções
marxistas-leninistas,
as quais negavam o
conceito ocidental
dos direitos humanos
como direitos
universais, foi
assim pública e
internacionalmente
julgado num fórum
parlamentar como
indigno de confiança
política! Álvaro
Cunhal (político
sempre tão elogiado
pela sua coerência),
disse claramente a
Portela Filho, numa
célebre entrevista à
revista "Opção" (nº
45), que ele via as
situações de
liberdade "com
espírito de classe,
não com critérios
gerais e
universais". Ora,
jamais ouvi que por
isso o ilustre
comunista devesse
ser impedido de ser
ministro ou
deputado.
Buttiglione não
disse nada que se
parecesse.
Os defensores do
casamento
homossexual em
igualdade com o
casamento
heterossexual têm
podido manifestar-se
e reclamar a não
discriminação pelas
suas "orientações
sexuais". Pelos
vistos, os católicos
têm de preparar-se
para também fazerem
manifestações
reclamando a não
discriminação pelas
suas "orientações
religiosas". É que
este episódio não é
insignificante nem
isolado. Em lugares
diversos desta
Europa dos direitos
humanos, e em nome
dos ditos direitos
humanos (e talvez em
resultado da
novíssima revolução
francesa que foi a
lei escolar contra
os símbolos
religiosos), estão a
multiplicar-se casos
de repressão e
condenação de
crentes: porque
ostentam sinais
religiosos por
vestirem uma batina
(caso de um padre em
Toulon); porque se
manifestam contra os
casamentos de
homossexuais (pastor
protestante na
Suécia); porque usam
véus religiosos
equiparados aos véus
muçulmanos (freiras
no Baden-Wurtenberg);
vários alunos
islâmicos e sikhs,
em França; etc. Os
católicos que se
cuidem. É prudente
revisitar as
catacumbas.
4. O fenómeno é
contudo mais
complexo. Veja-se
agora esta maldosa
tolice das campanhas
contra Fátima, por
causa do acolhimento
inter-religioso.
Fátima foi, durante
muitas décadas,
maltratada pelos
progressistas e
laicistas como lugar
de conservadorismo e
integrismo. Agora,
são alguns alegados
fundamentalistas que
a maltratam por ser
o oposto: lugar de
progressismo
inter-religioso.
Tratando-se de uma
campanha de origem
não bem
identificada, e
invocando-se factos
que são facilmente
verificáveis como
falsos, note-se o
eco que lhe tem sido
dado. Designadamente
por alguns
jornalistas
especialistas nas
questões religiosas
- se se tratasse de
um elogio ao
acolhimento
inter-religioso no
santuário, não teria
sido notícia. Mais
uma vez se pode
dizer que os
extremos se tocam.
Professor
universitário