Isilda 2 

Isilda Pegado, Presidente da Federação Portuguesa pela Vida:

"Os doentes, os idosos, os incapacitados, os que estão por nascer, os hospitalizados, os incuráveis, têm vida útil? Já não servem? Não vale a pena serem protegidos?

O utilitarismo do super-homem, do mais capaz, do saudável e cheio de forças, é o modelo de homem e mulher do nosso tempo?"

 

 

Por Isilda Pegado

Presidente da Federação Portuguesa pela Vida

 

1 - “Valeu a pena”? Perguntava o poeta “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (in Mar Portuguez – Fernando Pessoa).

Confrontamo-nos hoje com grandes debates sobre o valor da vida humana. Todas as vidas têm valor? Quais as vidas que têm valor? Quais as que “valem a pena”? Quais as vidas que o Estado deve proteger? Há vidas (algumas/todas) sem protecção social?

2 – Os doentes, os idosos, os incapacitados, os que estão por nascer, os hospitalizados, os incuráveis, têm vida útil? Já não servem? Não vale a pena (serem protegidos)? O utilitarismo do super-homem, do mais capaz, do saudável e cheio de forças, é o modelo de homem/mulher do nosso tempo?

3 – Os debates sobre a Eutanásia e o Aborto redundam, em última instância, nesta pergunta radical – “vale a pena viver, deixar nascer, apostar, ousar, investir, acarinhar, apoiar, amar?”… E tantos outros verbos do agir. Ou, dito de outra forma – “todas as vidas humanas têm a mesma dignidade?”.

4 – A Humanidade precisou de percorrer séculos e séculos para reconhecer que todas as vidas são iguais em dignidade. Travámos Guerras para demonstrar que escravo e homem livre são irmãos, que Judeu e Ariano são igualmente homens. Todos iguais em dignidade. E, quando parecia que já nada, nem ninguém, destruía este reconhecimento Civilizacional, surgem agora os debates sobre o valor da vida humana, das “vidas descartáveis” (como diz o Papa Francisco).

5 – Catalogamos, em nome de uma liberdade individual. E, a partir daqui, criamos “classes” de pessoais mais ou menos capazes e dignas. Os critérios do “catálogo” hoje são uns, mas amanhã podem ser outros. É um caminho errado que leva a sucessivos erros e, em última instância, destrói a própria Humanidade.

6 – Na Holanda, tem sido usado o conceito de “vida completada” no sentido de que já está tudo feito, por isso, posso/devo pedir a morte. E assim a pessoa é morta (eutanasiada), porque a sua vida já não é útil.

O arbítrio de um tal conceito é no mínimo “aterrador”. O que é uma vida completa ou completada? Tive filhos e criei-os, trabalhei e descontei para a Segurança Social, paguei as rendas da casa ou da hipoteca, … nada mais tenho a fazer neste mundo… Senão pedir a morte.

7 – Ou, ao invés, as fragilidades, o cumprimento dos deveres, concedem ao homem o direito, o verdadeiro direito a viver na “grandeza” do ser digno em todas as circunstâncias.

Ter a certeza de que o Sol nasce no dia seguinte, e a alegria que isso me vai dar é já um factor de valia para a minha vida. Ou, o neto por nascer deixa o coração a transbordar. Ou, a memória de uma vida que é fonte de alegria e alma para enfrentar o que hoje e amanhã me é pedido. Aceitar as circunstâncias da vida é o primeiro passo para a minha felicidade. Reconhecer o que me é dado, como a natureza que respeito, e a partir da qual construo cada dia, é a atitude do homem e da mulher que “ecologicamente” se colocam no mundo com liberdade.

8 – No fundo, o que o nosso poeta, Pessoa, dizia “quando a alma não é pequena”.

Há uma vertigem no dia-a-dia que não depende de qualquer catálogo, apenas pede Amor, companhia, entrega e saberes. O inverso é um totalitarismo que nega a “Alma” e reduz o Homem a um utilitarismo escravizante.

O Homem foi feito para esta grandeza, para esta Liberdade e para este Amor – por isso “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.