Incndio 
 
Opinião:
Não é este o país, e não é esta a casta governante – de todos os partidos sem exceção - que defende com toda a convicção, e com toda displicência, a subversão de valores tradicionais como a família, nas suas mais variadas vertentes? Da mesma forma displicente com que desgovernam o nosso território, da mesma forma insensata com que trataram fatias importantíssimas da nossa economia como a agricultura ou a banca, assim oferecem eles aos portugueses, a toda a hora, soluções fáceis para as nossas vidas difíceis, soluções que passam por mais miséria e mais destruição: o aborto para os jovens, a eutanásia para os velhos, a ideologia de género...

Vamos continuar a ir na conversa deles? Vamos esquecer o rasto de destruição que ficou? Vamos esquecer o junho que passou?

 

 

 

Foi uma tragédia de um país distante. 200 quilómetros é longe de Lisboa, longe das grandes cidades, longe do litoral, em pleno centro de Portugal. Com o passar dos meses junho de 2017 irá ficando distante também na memória.

64 mortos, de acordo com o balanço oficial. Centenas de casas ardidas, centenas de carros, tratores, máquinas e alfaias agrícolas destruídas. 50 mil hectares de floresta reduzidos a cinzas num fim de semana. 50 mil hectares não são 50 mil campos de futebol, não, são muito mais do que isso, são 0,5% de todo o território de Portugal Continental, território cuja dimensão é de aproximadamente 10 milhões de hectares.

Qual o custo da tragédia? Não sabemos quanto valem estas 64 vidas para as seguradoras, muito menos se algum dia o Estado irá indemnizar com um euro que seja os seus familiares. Mas sabemos que se perderam muitas dezenas de milhões de euros em casas, muitas dezenas de milhões em infraestruturas pertencentes a empresas de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, muitas dezenas, centenas de postos de trabalho perdidos. E o grande culpado, o eucalipto, quanto vale ele? Quanto vale 1 hectare de eucaliptal, mil, dois mil euros? São dezenas e dezenas de milhões em pasta de papel perdida. No total da tragédia, uns 500 milhões de euros, talvez, ninguém sabe…

A economia portuguesa estava – está - a animar. Os políticos portugueses andaram semanas e semanas, antes da tragédia, a embandeirar em arco com a indicação de que o PIB estaria a crescer algures entre 2 e 3% ao ano. O PIB português corresponde aproximadamente a 180 mil milhões de euros, isto é, em cada ano é gerado um rendimento nessa ordem de grandeza em Portugal. O tal crescimento de 2 ou 3% do PIB corresponderia a uma melhoria de 4 a 5 mil milhões de euros no conjunto do ano, por hipótese, ou seja, em meio ano, no conjunto do 1º semestre de 2017, ter-se-ia melhorado o rendimento dos portugueses em 2 ou 3 mil milhões de euros. Pois dessa melhoria no decurso de 6 meses, talvez uma quinta parte, 500 milhões, se tenha esfumado num fim-de-semana abrasador de junho. Nada que preocupe muito economistas e políticos pois, como eles bem sabem, nada destas perdas patrimoniais são verdadeiramente contabilizadas em termos de PIB e as estatísticas continuarão com boa apresentação.

64 mortos no mais mortífero incêndio florestal de que há memória. E se tivessem sido 64 mortos em resultado de um violento tremor de terra em Lisboa? Ou 64 mortos na sequência da queda de uma aeronave a sobrevoar a capital? Ou se tivessem morrido 64 pessoas em resultado de um atentado terrorista algures em Lisboa, no Porto, no Algarve, colocando em risco a bonança turística em curso? Provavelmente as ondas de choque seriam bem maiores e mais duradouras.

Será que a mãe natureza, o clima, a meteorologia foram os grandes responsáveis pela tragédia? E que dizer, realmente, do incontornável desordenamento florestal? Ou da estrutura inviável da propriedade? Ou do fim da agricultura nestas zonas? Que dizer da impossibilidade de a pequena agricultura familiar escoar os seus produtos, deixando os montes e vales todos entregues à floresta? É ainda, e uma vez mais, o fado d’ “A Cidade e as Serras”, de há 120 anos. Claro que todo o país é, em parte, culpado. O país que passa serões e serões, durante todo o ano, entretido a consumir tele-lixo – desde comentários desportivos ad-nauseam até a reality shows abomináveis - difundido pelas mesmíssimas cadeias de televisão que agora durante duas semanas dispensaram sessões contínuas de incêndios, rescaldos, atuações da proteção civil, debates e comentários técnicos sobre a tragédia. Claro que o país é, todo ele, parcialmente responsável. O país urbano e semi-cosmopolita, entretido a consumir tudo o que vem de fora através das grandes superfícies e dos grandes centros comerciais das principais cidades. O país mais ou menos desenraizado e esquecido das suas origens tem, por certo, uma parte da culpa.

Mas os governantes, os políticos em geral, atuais e passados, de todo o largo espectro partidário, são particularmente responsáveis. Alguma vez levaram a cabo reformas profundas com vista à valorização do território? Ou simplesmente se limitaram a implementar as reformas dos outros - na defesa de interesses bem mais distantes que os do país? E porque é que em Portugal há, proporcionalmente, muito mais área florestal e muito menos área agrícola, do que em Espanha, França, Itália? Porque é que a nossa casta dirigente não defende a nossa agricultura com unhas e dentes como os outros o fazem? Mas o problema da responsabilidade dos dirigentes deste país é, porventura, um problema mais vasto. Não são estes mesmos políticos – e esta mesma elite - que levou quase toda a banca nacional à falência? Não eram eles que deviam regular, supervisionar, monitorizar, todo o sistema que, ano após ano, colapsou? E não foram eles, também, que, ano após ano, fizeram de Portugal um dos países mais endividados do Mundo, a nível de dívida pública? Que gestores da coisa pública são eles, afinal?

Por fim, é este país, e são estes dirigentes, e é esta elite, que gastam tempos infindos, no Parlamento, nas televisões, na opinião bem-pensante, influenciando depois a opinião pública em geral, a defender todo o tipo de ruturas com o passado e com a tradição - em vez de resolverem problemas efetivos do país. É esta a casta governante – de todos os partidos sem exceção - que defende com toda a convicção, e com toda displicência, a subversão de valores tradicionais como a família, nas suas mais variadas vertentes. E, da mesma forma displicente com que desgovernaram o nosso território, da mesma forma insensata com que trataram fatias importantíssimas da nossa economia como a agricultura ou a banca, de igual modo oferecem aos portugueses soluções fáceis para as suas vidas difíceis, que passam, a maior parte das vezes, por mais miséria e mais destruição: o aborto para os jovens, a eutanásia para os velhos, a ideologia de género, a despenalização deste ou daquele tipo de comportamentos desviantes…

Vamos continuar a seguir o rumo deles? Vamos continuar a ir na conversa deles? Vamos esquecer o rasto de destruição que ficou? Vamos esquecer o junho que passou?

JG