z Jean Raspail 

Capa da revista Valeurs Actuelles em Abril de 2005

Jean Raspail, hoje com 92 anos, escreveu “Le Camp des Saints”, livro publicado em 1973, onde narra ficcionalmente a invasão de França por um contingente de um milhão de imigrantes, fugidos da fome e da miséria na Índia, fazendo a travessia dos oceanos numa frota de velhos navios até às costas do sul da Europa. Uma das inúmeras personagens da cena internacional que intervêm ao longo do enredo é um Papa, de origem brasileira, designado Bento XVI. Passados 45 anos o livro de Jean Raspail é mais polémico, e porventura mais visionário, que nunca e é hoje, igualmente, fonte de inspiração de algumas mudanças políticas como a que ocorreu nos Estados Unidos em 2016.

 

 

Opinião:

“Le Camp des Saints” de Jean Raspail: um aviso à navegação com 45 anos

Jean Raspail, hoje com 92 anos, escreveu “Le Camp des Saints”, livro publicado em 1973, onde narra ficcionalmente a invasão de França por um contingente de um milhão de imigrantes, fugidos da fome e da miséria na Índia, fazendo a travessia dos oceanos numa frota de velhos navios até às costas do sul da Europa. Uma das inúmeras personagens da cena internacional que intervêm ao longo do enredo é um Papa, de origem brasileira, designado Bento XVI. Passados 45 anos o livro de Jean Raspail é mais polémico, e porventura mais visionário, que nunca e é hoje uma fonte de inspiração de inúmeras mudanças políticas como a que ocorreu nos Estados Unidos em 2016.

Um profeta, para os crentes, é alguém que “vê antes” por inspiração divina. O falso profeta, por outro lado, invoca de forma enganosa essa pretensa inspiração divina com o intuito de condicionar os outros. Para crentes e não crentes, contudo, o verdadeiro profeta é, simplesmente, alguém particularmente lúcido, informado, atento, avisado, visionário mesmo, que não é influenciável pela opinião dominante, que pensa de forma independente e a quem o tempo vem a dar razão.

O livro de Jean Raspail surge numa época em que o desnível de riqueza entre o Ocidente - a Europa da CEE, os EUA e o Japão - e o então chamado Terceiro Mundo, era abissal e em que a economia chinesa não se tinha ainda afirmado como potência industrial e exportadora global. O 1º choque petrolífero, ocorrido em final de 1973, e os que lhe sucederam posteriormente, vieram alterar a relação de força entre as economias e tiveram como consequência uma substancial transferência de riqueza dos países industrializados para os países exportadores de petróleo, e também para os exportadores de outras matérias-primas, quase todos eles do Terceiro-Mundo, reduzindo o fosso de riqueza entre países ricos e países pobres, a expensas das economias ocidentais. Estas alterações económicas posteriores à obra vêm de certo modo retardar e mitigar os riscos de convulsão que se perfilavam no imediato, ou seja, o choque petrolífero veio interpor-se ao choque migratório que se antevia… Um segundo aspeto marcante da época em que surge a obra de Jean Raspail, é que nos encontramos no rescaldo da presença colonial da Europa em África, e noutros pontos do globo. Com a exceção de Portugal, que sairá de África em 74 e 75, a vitória retumbante, ao longo da década de 60, de praticamente todos os movimentos de autodeterminação e independência nas colónias pertencentes aos países europeus pôs fim a uma época de afirmação e poderio global da Europa e à progressiva tomada de consciência de que os europeus, embora mais ricos - após a fortíssima expansão económica dos anos 60 - estão de novo confinados, geograficamente, ao seu antigo território de origem. Em terceiro lugar, o contexto social do início dos anos 70 mudou por completo face às décadas anteriores, com uma profunda alteração dos costumes e da moral vigente, com o abandono de um padrão conservador, ditado por normas religiosas rígidas, para um novo modelo caracterizado por uma grande liberdade de comportamentos, a nível sexual, em claro confronto com as regras morais ancestrais. A revolução sexual dos anos 60 e 70, em consequência da difusão e banalização dos métodos anticoncetivos, teve um dos seus momentos de clímax nas revoltas dos estudantes franceses do Maio de 68, sob o mote de que “é proibido proibir”, e resultou posteriormente numa aceitação aparentemente definitiva por parte dos poderes instituídos e da opinião pública dos novos padrões de comportamento. Com a Lei “Veil”, proposta por Simone Veil, a França consagra na lei, em 1975, a liberalização do aborto em França.

O romance de Jean Raspail narra de forma magistral a expedição de uma armada miserável de cem navios decrépitos que sulcam o Índico a partir do Golfo de Bengala com 1 milhão de deserdados apinhados a bordo, em fuga da fome e da miséria da Ásia e em busca da terra prometida, cheia de riquezas, na Europa. Simultaneamente ficciona as ações e reações da opinião pública, das chancelarias, das diversas instâncias de poder civil e militar dos países ocidentais, decorrente da progressão da armada miserável em direção á Europa. Depois de lhes ter sido negada a passagem pelo Suez, o comboio de navios contorna África e dirige-se para o Atlântico sendo esperado por miríades de organizações governamentais e não-governamentais à passagem por São Tomé na tentativa de o deter e demover. Contudo, os navegadores que, ironicamente, estão a percorrer, em sentido inverso, o caminho marítimo que 5 séculos antes Vasco da Gama havia feito em sentido oposto, em direção à Índia, iniciando a 1ª “globalização europeia”, estão determinados a chegar à Europa e declinam qualquer proposta de retorno ao seu país. Simultaneamente as fragilidades políticas dos diversos governos ocidentais inviabilizam uma posição comum e lançam a Europa numa espécie de “salve-se quem puder” face à iminente chegada da gigantesca massa de refugiados sobreviventes da expedição. A armada dos deserdados chega finalmente às costas de França no dia de Páscoa, com a população do sul do país em fuga para norte e os países vizinhos cada vez mais na mira de novas hordas de imigrantes. No meio de toda a narrativa, algumas menções ao Papa, no romance, contêm, de forma inesperada, coincidências e similitudes surpreendentes, simultaneamente, aos atuais Papa Francisco e Papa Emérito Bento XVI, nomeadamente o nome deste último, por um lado, e o facto de o Papa do romance ser um sul-americano, como o Papa Francisco. Dois curtos excertos do texto a este respeito: “…O Vaticano acabou de tornar pública uma declaração de Sua Santidade o Papa Bento XVI retomada por todas as agências noticiosas cujo texto oficial é o seguinte: “Nesta Sexta-Feira Santa, dia de esperança para todos os Cristãos, pedimos aos nossos irmãos em Jesus Cristo que abram as suas almas e os seus corações e os seus bens materiais a todos os infelizes que Deus conduz a bater às nossas portas.”” ;“…Não se podia esperar outra coisa de um Papa brasileiro. Os Cardeais queriam um Papa inovador, em nome da Igreja universal (… ). No tempo em que ele era Bispo, agitava a Europa com o relato das misérias do terceiro-Mundo…”

Jean Raspail, profundamente católico, monárquico, com vasta obra publicada, também explorador e viajante, intelectual e pensador contra a corrente, foi ostracizado, marginalizado, estigmatizado e apelidado de racista e xenófobo, porventura por ser essa era a única arma ou manobra de diversão do “sistema” para esconder ou ignorar algo tão grave como o cenário de uma bomba-relógio migratória e demográfica a atingir a Europa. Contudo o intuito de Jean Raspail, longe de propósitos xenófobos ou racistas, é precisamente o de lançar um grito de alerta, um apelo, um manifesto, contra os desvios morais da nova sociedade francesa e europeia e um aviso desesperado face aos desequilíbrios demográficos cada vez mais evidentes e inexoráveis na Europa e no Mundo. De resto, ele publica, sobre o tema, em 1985, um artigo conjunto com o demógrafo francês Gérard François Dumont, numa ótica mais científica. O alvo real dos ataques de Jean Raspail não são os migrantes mas antes a falta de convicções, de coerência, e de firmeza por parte da sociedade ocidental e das suas elites políticas, sociais e intelectuais.

Das décadas de 70 e 80 a esta parte, muita coisa mudou e muita água correu debaixo das pontes. As crises económicas nos países ricos foram-se sucedendo e a explosão demográfica na Ásia, na América Latina e em África não se traduziu exatamente num assalto-relâmpago de novos povos e novas culturas aos países europeus, mas antes numa invasão em câmara lenta, a conta-gotas, e não de forma explosiva como n’ “O Campo dos Santos”. Essa invasão em curso ao longo de décadas tem sido uma entrada consentida motivada simultaneamente pela pressão dos que procuram uma vida melhor, vindos de países pobres, e aqueles que, no Ocidente, pretendem manter um mercado de trabalho viável e competitivo com mão-de-obra acessível, num quadro de competição global com mercados emergentes, e que permita às empresas continuar a funcionar a despeito da quebra significativa da oferta de mão-de-obra local por efeito da baixa continuada de natalidade nos respetivos países. No caso de França, por exemplo, é bem sabido que, ao longo das últimas décadas, em cada ano, os 200 mil imigrantes que chegam, em média, vêm repor, de forma desfazada, o deficit de natalidade passada resultante dos 200 mil abortos anuais legalmente praticados desde a “Loi Veil”, ou ilegalmente antes dela. Mais recentemente, a crise migratória dos anos mais trágicos da guerra na Síria e o constante fluxo migratório em todo o Mediterrâneo são uma constante “wake-up call” para as tensões económicas e populacionais entre a Europa e os seus vizinhos, tal como nos EUA com os seus vizinhos a sul da fronteira com o México.

A obra de Jean Raspail voltou a ser editada em França em 2011 com um prefácio do autor intitulado “Big Other”, uma alusão indireta também ao “big brother” de George Orwell em “1984”. Em espanhol, o livro chama-se “El Desembarco”. Em Portugal havia sido publicado em 1977 pela Europa- América sob o título “Mortos, duzentos milhões, todos nós”. “Le Camp des Saints” tem-se tornado, progressivamente, um símbolo, um ícone, um ponto de referência para todos aqueles que consideram que os problemas migratórios e demográficos já chegaram a um ponto de rutura e de não-retorno, seja Steve Bannon nos EUA, na sua qualidade de ideólogo da campanha de Donald Trump, sejam os dirigentes da Frente Nacional em França, e muitos outros movimentos em diversos países europeus. Em suma, à medida que o tecido social e cultural do Ocidente perde a sua identidade e se vai decompondo, e à medida que o panorama político-partidário se vai desintegrando e vai implodindo nos diversos países - por incapacidade de resposta aos problemas económicos e sociais por parte do sistema - os novos atores e agentes políticos e intelectuais vão-se socorrendo de visões como as de Jean Raspail que, na verdade, tinha boa parte da razão muito antes do tempo.

JG

25 março 2018