D Migrations

2038, Norte de Portugal. Vilas e aldeias têm visto a sua população aumentar constantemente, não só por efeito da vinda de dezenas e dezenas de milhar de colonos africanos, e suas famílias, que se dedicam maioritariamente à agricultura de subsistência, como  pelo número de filhos que os núcleos familiares destas comunidades têm. Enquanto nalgumas regiões do país prevalecem colonos africanos provenientes de zonas originariamente católicas, noutras o número de muçulmanos é maioritário, vindos de regiões de África mais a Norte, ou do Médio-Oriente. Atualmente no país a cidade de Fátima é uma nova Jerusalém, uma aglomeração com um estatuto especial, uma exceção, onde podem conviver todos os credos.

Nada poderá ficar na mesma com as próximas crises migratórias.

I

Em 1960, o continente africano tinha uma população de 300 milhões de habitantes. No ano 2000, eram 800 milhões. Hoje tem 1.3 biliões de habitantes, o mesmo número que tem cada um dos gigantes asiáticos, quer a China quer a Índia. Ao longo de 60 anos, a população daquilo que é hoje a União Europeia, constituída ainda por 28 países, pouco variou, a não ser por efeito de influxos migratórios. Atualmente a UE tem 500 milhões de habitantes e uma população muito mais envelhecida do que há meio século atrás. De uma dinâmica na qual predominou, durante toda a época colonial, a exportação dos excedentes populacionais da Europa para regiões com vastos territórios fracamente povoados em África ou no continente americano passou-se, a partir dos anos 60 do século XX, a uma estagnação do crescimento demográfico na Europa e a uma entrada crescente de mão-de-obra mais jovem vinda de África, da América Latina, da Ásia e Médio-Oriente, com o objetivo, por parte dos novos emigrantes, de fugirem à pobreza e à guerra nos seus países de origem, e com o intuito, nos países de acolhimento, de se manterem os mercados de trabalho relativamente abastecidos de mão-de-obra barata de forma a salvaguardar uma certa competitividade face às exportações provenientes de mercados emergentes.

Neste momento, dada a inércia económica da velha Europa, a riqueza disponível para ser partilhada entre residentes, não cresce, e o peso de todos os sistemas de proteção social instituídos é de tal ordem que a generalidade dos países só os mantem com recurso a taxação cada vez mais elevada sobre o trabalho e sobre as atividades económicas. Ainda assim a ilusão de eldorado económico que a Europa, e os Estados Unidos, evocam junto das populações africanas e latino-americanas, respetivamente, é tão forte que estas continuam a fugir das suas regiões de origem, em direção a Norte. Guerras, criminalidade, desemprego jovem elevadíssimo, pobreza, falta de serviços públicos e de habitação, em grandes cidades superpovoadas, com bairros de lata imensos, alimentam fluxos migratórios imparáveis.

II

Há anos atrás a sociedade não tinha quaisquer dúvidas sobre o caminho a seguir, sobre o modelo social e cultural a adotar. Todas as liberdades, todos os direitos, tudo para todos. Droga? Tolerância generalizada, quase institucional. Sexo livre para os jovens? Sem consequências. Falhas nos anticoncetivos? Aborto legal, subsidiado, incentivado. Família tradicional? Um mero vestígio do passado. Divórcio? Inevitável. Casamento entre pessoas do mesmo sexo? Natural, normal, inquestionável. 

Passaram-se muitos anos e eis que problemas cada vez mais graves e complexos se foram avolumando: Ruturas familiares generalizadas, famílias cada vez menos coesas, cada vez menos estruturadas, cada vez mais divididas. Filhos em regime de time-sharing entre os progenitores. Nalguns casos, os jovens, menos enquadrados, presas fáceis das drogas. Droga, caminho sem regresso. Droga, negócio de biliões em todo o lado, perante a permissividade geral. Droga, pequena e grande criminalidade. Droga, guerras de subúrbios e de gangues, nas grandes cidades, quase guerras civis também em países produtores ou em países de entreposto. Dantes a Colômbia, hoje o México, taxa gigante de homicídios relacionados com o tráfico de droga destinada aos EUA. No sul de Itália, no sul de Espanha, cenário semelhante.

Envelhecimento. Na Europa e nos EUA, no Japão, na Austrália, em todo o mundo desenvolvido, o envelhecimento da população atingiu níveis nunca antes registados, nem em épocas de grandes guerras do passado. Também a China, em processo de envelhecimento aceleradíssimo. A China há muito que abandonou, na economia, a planificação de cariz comunista e se voltou para um capitalismo híbrido com conglomerados gigantescos com projeção internacional mas com proteção e patrocínio político internos. Mas se a economia se afastou do modelo estatizado puro, a sociedade e a família é, e tem sido, durante décadas, regida de acordo com a planificação demográfica férrea do Estado. A política de filho único, no seio de uma família legalmente constituída, vigorou até há 3 anos atrás. O número de abortos era, e é, inevitavelmente, gigantesco. Resultados? O desequilíbrio entre o número de homens e mulheres na China é de dezenas de milhões. O deficit de mulheres é enorme e, com a limitação de um filho por família ao longo de décadas, a alteração da pirâmide etária é tão drástica que se atingiu uma velocidade de envelhecimento sem paralelo.

Enquanto o Ocidente, o mundo rico em geral, e países como a China, iam sofrendo transformações estruturais profundas na composição da sua população, noutras regiões do globo o crescimento populacional mais natural dava lugar a um aumento demográfico significativo com uma componente muito importante de população jovem. A sul da Europa e dos Estados Unidos - em África e na América Latina respetivamente - dezenas e dezenas de milhões de pessoas anseiam por poder entrar nesse mundo rico onde ainda se acumulam recursos gerados nos tempos de prosperidade. As diferenças económicas são grandes e o diferencial de pressão demográfica é imenso entre uma Europa ou uma América envelhecidas e sem crescimento populacional, e uma África ou uma América Latina muito populosas, muito jovens, e em crescimento. A pressão migratória é enorme.

III

2038, Norte de Portugal. Vilas e aldeias têm visto a sua população aumentar constantemente, não só por efeito da vinda de dezenas e dezenas de milhar de colonos africanos, e suas famílias, que se dedicam maioritariamente à agricultura de subsistência,  como pelo número de filhos que os núcleos familiares destas comunidades têm. Enquanto nalgumas regiões do país prevalecem colonos africanos provenientes de zonas originariamente católicas, noutras o número de muçulmanos é maioritário, vindos de regiões de África mais a Norte, ou do Médio-Oriente. Atualmente no país a cidade de Fátima é uma nova Jerusalém, uma aglomeração com um estatuto especial, uma exceção, onde podem conviver todos os credos. Nas ruas de aldeias, vilas e cidades, ouve-se falar brasileiro e português de África, francês com acento crioulo, espanhol, árabe. As vestes são agora muito diferentes das do início do século, sobretudo no vestuário feminino, que marca de forma clara a pertença ao grupo étnico, religioso, familiar. Nem tudo são rosas nesta nova ocupação do território de Portugal e Espanha, anteriormente despovoado, envelhecido, pasto de grandes incêndios florestais em décadas passadas, então votado ao abandono. A par do povoamento, circula muito armamento e, nos diversos feudos, sultanatos, emirados, comunidades cristãs, torna-se necessário um esforço permanente de autodefesa face a comunidades adversárias mas sobretudo contra bandos armados, jihadistas, terroristas, assaltantes, salteadores, máfias diversas, de origem local ou vindas de outros territórios distantes. As principais cidades e regiões, na Península Ibérica e na Europa, foram-se reorganizando da melhor forma possível na sequência da desagregação da antiga União Europeia, ocorrida em 2028. A segurança, o policiamento local, o controle das atividades e dos costumes tornou-se muito mais rígido, quer nas áreas islâmicas, quer nas zonas controladas por outras confissões religiosas ou no que resta do Estado aconfessional. As vagas migratórias que se sucederam geraram um sistema neo-feudalista em que comunidades locais e regionais exploram o território na base da agricultura e indústrias diversas, e são tuteladas por estruturas e forças policiais e militares próprias, mais ou menos descentralizadas, integradas num sistema de alianças mais alargado com exércitos regionais e o que resta das antigas forças armadas nacionais, a quem se paga e presta vassalagem, e às diversas superpotências americanas e asiáticas com as quais cada região mais se relaciona.

 

JG

Junho 2018