FX European elections

Editorial/Opinião: Eleições europeias e nacionais de 2019. A movimentação, nos bastidores, de partidos e movimentos dos 27 estados-membros nunca foi tão forte para umas eleições europeias como desta vez. Há cada vez mais mudanças em curso por toda a Europa e o status quo que tem imperado em matérias civilizacionais está a esboroar-se com a ascensão de movimentos muito menos alinhados com o "establishment" e de partidos contra a corrente que chegaram ao poder nos países do Leste e agora também em Itália ou Áustria… Em Portugal os dogmas de fé do politicamente correto também podem começar a ser postos em causa.

O futuro, seja ele na economia, na vida, na política, traz sempre factos novos e desfaz sempre as mais brilhantes previsões ou inspiradas expectativas. O futuro, por definição, demarca-se do passado e do presente, ambos irrepetíveis e irrecuperáveis. Enquanto o tempo não pode voltar atrás e ser alterado ou refeito, o futuro, esse, está ainda por escrever, por desenhar, por esculpir, ainda que esse processo esteja sempre em gestação e em parte dependente de tudo o que vem de trás.

Falta pouco mais de meio ano para as eleições ao Parlamento Europeu, a realizar em Maio, e falta também, previsivelmente, cerca de um ano para as próximas eleições legislativas em Portugal.

Seja na Europa, seja em Portugal, não podemos exigir aos políticos a eleger, homens e mulheres como todos nós, que não tenham pecado original, que não tenham erros no seu historial, que sejam perfeitos e imaculados. Mas precisamos de políticos que, pelo menos, acreditem naquilo que dizem e fazem e que, pelo menos, se empenhem no futuro que desejam e tentam construir. Precisamos, em 2019, nos anos seguintes, e sempre, de políticos sem complexos em serem aquilo que são e sem vergonha de dizerem aquilo em que acreditam, seja “frente a reis e príncipes, frente ao povo e à multidão, frente a amigos ou a inimigos”, como dizia Rudyard Kipling, no poema “If”….

A luta pela defesa da vida está cada vez mais na ordem do dia e está na agenda política e eleitoral de um número crescente de países… Irónico para todos aqueles que proclamavam e proclamam o direito ao aborto como um dado adquirido, para sempre, irreversível numa sociedade moderna, avançada. Pelo contrário, cada vez mais o aborto é questionado e posto em causa. Precisamos, hoje, na Europa e em Portugal, de políticos que lutem e se pronunciem, ativamente e convictamente, pela defesa da vida e da família tradicional, contra o aborto e contra a permanente desvalorização dessa família “convencional”. Precisamos de políticos que tenham coragem de erguer a sua voz e de dar o corpo às balas neste combate que se intensifica, ano após ano.

A Europa precisa de políticos que defendam as raízes humanistas que presidiram à sua fundação e à sua construção – ou, melhor dito, que presidiram à sua refundação e reconstrução - após a 2ª guerra mundial. Precisamos – nós, os 500 milhões de europeus - de políticos que acreditem nas raízes cristãs da Europa - sem qualquer hostilidade ou inimizade nem o menor desrespeito pelas outras religiões, confissões, credos, ou pelos que não creem mas sem qualquer complexo de “inferioridade” pela religião dos que nos precederam. Precisamos de políticos, qualquer que seja a sua religião, que defendam a moral pública e privada, a decência na vida social e individual, a honestidade na ação, a honradez na palavra dada. Precisamos de políticos que defendam e promovam ativamente a família, que defendam e protejam ativamente a vida, desde o seio materno até à morte natural, por uma questão de princípio, mas não só, também porque vida e família são os tijolos básicos da sociedade e, a prazo,  da economia em que todos vivemos e trabalhamos. Queremos políticos que defendam e promovam, com determinação, a maternidade, a paternidade e a natalidade, não só com palavras e decisões fáceis ou de fachada, mas com medidas que cortem a direito, ainda que difíceis, com coragem.

Quer a nível europeu, quer a nível nacional, precisamos de líderes políticos que sejam capazes de lutar sem hesitações nem tibiezas. Líderes políticos que sejam capazes de dar um murro na mesa, seja esta de príncipes, reis, ricos, poderosos, ou seja ela de massas anónimas desnorteadas, manipuladas, alienadas ou desanimadas. Precisamos de novos líderes que sejam capazes de elevar a sua voz pelo que está certo e contra o que está errado, que sejam capazes de remar contra a maré da mentira, que sejam capazes de romper cortinas de silêncio, que sejam capazes de cortar com o status quo. Políticos corajosos que cheguem ao Parlamento Europeu e lutem todos os dias contra uma sociedade libertária e amoral e contra posições e legislações pseudo-progressistas e auto-destrutivas. Precisamos, nós, os 10 milhões de portugueses, de levar também para Estrasburgo uma mensagem marcada pelo humanismo português, pelo humanismo luso, polo humanismo lusófono.

Não queremos políticos que tenham a defesa da vida somente no rótulo, no currículum ou no programa, queremos aqueles que lutem e pugnem pela abolição, pela proibição, pelo desincentivo, pela própria repressão, da injustiça e demência coletiva que significam o aborto, a eutanásia, as novas formas de eugenismo, a nova procriação laboratorial mercantilista. Não queremos gente contemporizadora que pretenda passar durante 5 anos pelos pingos da chuva, sem se molhar, à espera de uma reeleição ou, por inércia, de um regresso dourado a Lisboa.

Na Europa como em Portugal, precisamos de uma nova fibra de políticos e de uma nova estirpe de políticas. Todos sabemos que se realizaram referendos, que há uma realidade e uma prática com a qual convivemos todos os dias, que há constitucionalidades e inconstitucionalidades, que há juízes e jurisprudência, que há justiça e injustiça, erros e omissões, interpretações, princípios e falta de princípios. O que diz, por exemplo, a Constituição Portuguesa a propósito do direito à vida? Não o reconhece? Reconhece em certos casos? Ou é taxativa, no seu artigo 24 (Direito à Vida), quando determina que “A vida humana é inviolável”? Mas mesmo a Constituição, obviamente, não está acima da Vida: ainda que ela tivesse sido elaborada por um louco sanguinário e dissesse o contrário, que “A vida humana é descartável”, qual seria a sua legitimidade? Da mesma forma no que se refere à instituição do referendo? Sobrepõe-se este ao princípio básico de defesa da vida consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Constituição da República e no Direito Natural? Naturalmente, Não. Em termos mais concretos, a propósito, especificamente, de referendos: qual a validade das votações sobre o aborto realizadas em Portugal em função, nomeadamente, do grau de abstenção dessas consultas, e tendo em conta o que refere a legislação nacional sobre atos referendários? Foram eles "juridicamente" válidos? E como é que se passa de uma pergunta em referendo sobre a mera “despenalização do aborto” e das mulheres que o praticaram, para uma legalização que torna o aborto num quase-"direito inalienável"? E qual o prazo de validade ou caducidade dos referendos? São eles eternos? São eles válidos por 5, por 10, por 50 anos?... São eles definitivos quando o resultado “convêm”? Teria havido novo referendo em 2007 se em 98 Portugal tivesse dito Sim ao aborto? E quantos mais referendos teriam sido levados a cabo se os eleitores tivessem voltado a dizer Não ao aborto em 2007? E ainda: existe alguma razão superior ou existencial que determine que um referendo só pode ser revertido por outro referendo? E quanto tempo se tem de esperar até que os efeitos nefastos de uma decisão errada sejam óbvios até que comecem a ser corrigidos?

Precisamos de decisões decentes e corajosas, precisamos de políticos com visão e convicção, precisamos de recuperar os valores básicos da sociedade, precisamos de voltar aos princípios humanistas de Portugal e da Europa.

Precisamos de políticos dispostos a lutar por tudo isso, agora, em 2019, sempre.

 

If you can talk with crowds and keep your virtue,

    Or walk with Kings—nor lose the common touch,

If neither foes nor loving friends can hurt you,

    If all men count with you, but none too much;

If you can fill the unforgiving minute

    With sixty seconds’ worth of distance run,   

Yours is the Earth and everything that’s in it,   

    And—which is more—you’ll be a Man, my son!

Rudyard Kipling

  

Editor do Site da FPV

Setembro 2018