"O aborto é sempre um mal: para a criança porque é impedida de nascer; para a mulher que o pratica porque física e psiquicamente fica com marcas para o resto da vida; para o pai porque de uma forma ou outra (umas vezes é o impositor do acto, outras porque contra a sua vontade) acaba por carregar aquela culpa e dor; e para a Sociedade que assiste e tem dentro de si estes sofrimentos que tantas vezes geram agonias, danos, depressões e até violências diversas."

Isilda Pegado
Presidente da Federação Portuguesa pela Vida

 

Dois versos de Fernando Pessoa
“Deus ao mar, o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu”.
Parece-me que isto é um pouco do que estamos a viver hoje na sociedade.
 

É uma grandeza, um mais, que nasceu há 10 anos e que se mantém. Mantém graças ao trabalho de todos: os movimentos que estão na Federação, os que não estão federados, mas todos a trabalhar pela Vida.

Por vezes telefonam-nos de Castelo Branco, Abrantes…. Há uma mulher nestas condições… Quem é que pode ir ter com ela? E recorremos ainda aos apoios que nasceram em 2007. Encontramos a Sr.ª A ou o Sr. B que estão naquela terra, ou até, naquela paróquia. Alguém vai ajudar aquela mulher. O referendo de há 10 anos, teve um resultado mau, mas teve outros resultados muito bons.

Obrigado a todos, por terem vindo.

Obrigado por este trabalho maravilhoso, que acabamos de ver.

Por vezes, nem nós temos noção da dimensão do que se passa no País e do que, todos nós, construímos no dia a dia.

Com este trabalho vamos ganhando “um referendo” ao aborto, em cada dia da nossa vida. Bem hajam a todos os que, no terreno, trabalham na defesa da Vida.

Não sei muito bem o que dizer depois destes testemunhos vivos. Serei muito breve porque acho que o que havia a dizer, está dito.

Dois versos de Fernando Pessoa

“Deus ao mar, o perigo e o abismo deu

Mas nele é que espelhou o céu”.

Parece-me que isto é um pouco do que estamos a viver hoje na sociedade.

Pegando no filme que passou e na realidade que o João Paulo Malta ali descrevia, dos grupos cívicos, hoje, 10 anos depois, este trabalho e esta realidade existe no país. Temos uma implementação nacional de apoio à maternidade que é social e que não está hipotecada do poder político.

É uma grandeza, um mais, que nasceu há 10 anos e que se mantém. Mantém graças ao trabalho de todos: os movimentos que estão na Federação, os que não estão federados, mas todos a trabalhar pela Vida.

Por vezes telefonam-nos de Castelo Branco, Abrantes…. Há uma mulher nestas condições… Quem é que pode ir ter com ela? E recorremos ainda aos apoios que nasceram em 2007. Encontramos a Sr.ª A ou o Sr. B que estão naquela terra, ou até, naquela paróquia. Alguém vai ajudar aquela mulher. O referendo de há 10 anos, teve um resultado mau, mas teve outros resultados muito bons.

Porém, outros perigos existem hoje.

Além de se querer silenciar a questão do aborto, pretende-se também (isto foi uma moda que agora apareceu nestes últimos 8 anos) branquear, dizendo-se: - A legalização do aborto veio fazer com que haja menos casos de aborto. Mas, por exemplo, no último ano, o aborto desceu em 200 casos (porque há menos mulheres em idade fértil).

Ou alega-se ainda, que há menos casos de complicações médicas.

Respondemos – não somos a favor do aborto clandestino. Nós somos contra todo o aborto! Que não se levante este estigma sobre nós. Dizemos que a vida é sempre um bem. Não há sociedade sem pessoas.

O Francisco Vilhena da Cunha referiu a questão da dezena de milhar de postos de trabalho que estão aqui em causa. Com toda a razão. Façam comigo este exercício. Desde 2007 terão deixado de nascer cerca de 170.000 crianças. As turmas do ensino básico, têm… 15, 17…20 alunos. Então, 170.000 a dividir por 17, dá 10.000 postos de trabalhos que estariam acessíveis aos nossos jovens recém-licenciados que querem ser professores e que têm entre 20 a 30 anos, ou aos nossos educadores de infância…

Os sindicatos não percebem isto? A cegueira ideológica impede-os de perceber isto?

Ninguém está a falar em obrigar uma mulher a ter filhos. Não é esse o ponto neste momento. O nosso ponto é: o que é que fazemos para que as mulheres possam ter o seu filho? As mulheres e os homens. O que é que a Sociedade e o Estado fazem de apoio á maternidade e á paternidade?

Nós ouvimos três brilhantes testemunhos. As Instituições fazem um trabalho concreto. Temos conhecimento disso… que são centenas de vidas que, por ano, são salvas, que nascem, por efeito deste trabalho social que estamos a fazer, e que pode ser ainda muito maior.

Como sabem, apresentamos na Assembleia da República uma iniciativa legislativa de Apoio à Maternidade. Fizemos uma lei extensa. Chegou ao parlamento, cumpriu com todos os requisitos legais, e foi aprovada. Não na totalidade, mas em parte significativa – já era um caminho. Porém, mudou o Governo e a actual governação revogou-a. O Governo, deu mais uma vez um sinal de que não tem nada a dizer ás circunstâncias dramáticas em que as mulheres tantas vezes fazem o aborto. O Estado demite-se da solidariedade.

Mas nós não desistimos! Nós vamos continuar neste trabalho. Estou certa de que alguma coisa há-de aparecer mesmo a nível legislativo.

O caso da Santa Casa da Misericórdia, é de facto um caso paradigmático. Obrigado João!

É um caso para replicar no país inteiro. As Misericórdias nasceram para ajudar aqueles que são mais carenciados. E neste momento os mais carenciados são os que estão para nascer.

Aos jovens: obrigado por estarem aqui.

Quero contar algo que me deixou com muita esperança. Onde estiver, conto isto.

No último ano estive por duas vezes (há cerca de um ano e agora há cerca de um mês) em dois encontros na Faculdade de Direito de Lisboa. Não estou a falar da Católica, estou a falar da Faculdade de Direito de Lisboa. O primeiro encontro tinha como título - “Aborto: é isto que queres?”. Acho que o tema era este.

O segundo encontro foi sobre a Eutanásia.

Em qualquer dos dois encontros só estavam oradores que defendiam as posições que nós defendemos. Qualquer dos encontros foram realizados ás sextas feiras, ás 18h30 e duraram até por volta das 20h30 da noite. Realizaram-se no maior auditório da Faculdade de Direito de Lisboa, que tem 400 lugares sentados. No primeiro, quando cheguei e me disseram que era no auditório principal eu disse: são mesmo jovens iludidos. Cheguei quando já tinha começado. Quando entrei não tive lugar para me sentar nas cadeiras. Sentei-me no chão. Estavam cerca de 500 jovens.

O segundo encontro, sobre a eutanásia, aconteceu exactamente a mesma coisa.

Portanto, a minha esperança é de facto na vossa geração! A vossa força, dá-nos razão para continuar a trabalhar e a acreditar nestes colóquios ao sábado de manhã.

Aqueles colóquios na Faculdade de Direito de Lisboa são organizados por estudantes católicos. Podia haver anti corpos. Mas, na verdade, esta não é uma questão de religião. Parte-se do que há, como dizia a Gabriela. Parte-se do que há! Se são estudantes católicos que enchem aquele auditório da Faculdade de Direito, então é por aqui que se tem de começar. Não parto da ilusão de que quero ver os “jovens socialistas” ali sentados. Também o desejava, mas não é daí que eu parto.

Amigos, não vou demorar mais, é sábado de manhã, temos de ir para junto das nossas famílias. Peço-vos que em cada circunstância repliquem aquilo que hoje ouvimos aqui.

Estamos a viver um momento que há dez anos sabíamos que ia acontecer.

A vida humana tem dois momentos de grande fragilidade: o início e o fim. E, por isso, há dez anos começou a campanha da eutanásia. Estamos hoje na campanha da eutanásia. Cada um de nós, nos últimos dias, tem assistido a isto.

Hoje, pensando no que podia dizer de novo…, nada. Mas porque as coisas estão ligadas, talvez o melhor seja contar-vos a história do “avô Paulo”.

“O AVÔ PAULO QUER SER EUTANASIADO”

O avô Paulo, desde que a sua Mimi “partiu” e este cancro apareceu está numa enorme tristeza. Entre os tratamentos de quimioterapia e a notícia de que não haverá muito a fazer por parte da medicina… gerou-se nele a ideia de que “já não está cá a fazer nada”.

O avô Paulo tem 84 anos, duas filhas maravilhosas, 5 netos que são o seu orgulho. Mas, sente-se cansado, triste e parece-lhe que é um peso para a família, para os médicos e “para todos” – como ele diz: “Que estou cá a fazer?”. Sou um peso para todos?

Em conversa, muito privada, disse à filha Ana que estava a pensar seriamente em pedir a eutanásia. Apenas queria preveni-la, sem grandes alaridos.

A Ana não continha as lágrimas e respondeu-lhe: “Agora que os meus filhos estão casados e eu estou reformada da escola e posso estar mais tempo com o paizinho, diz-me isto? Os miúdos adoram-no… O paizinho já pensou na alegria dos almoços de domingo? Nas festas de família?”.

A Ana foi dizer à irmã Rita a ideia do pai. As duas não paravam de chorar. Perguntavam-se: “Onde falhamos?”, “A culpa é nossa…”.

Os cinco netos e os genros souberam da ideia do avô Paulo. Fez-se um jantar de família onde o avô Paulo disse: … nas circunstâncias em que me encontro, não pedir a eutanásia (agora que está legalizada) é ser egoísta, vocês têm mais que fazer do que andar comigo de hospital para hospital e de tratamento para tratamento…”.

Os genros diziam que o pai deveria ter consulta de psiquiatria porque talvez houvesse ali uma leve depressão… que precisava de ser tratada.

Os netos contavam as histórias dos natais e das férias na Beira na aldeia do avô. Mas nada demovia o avô Paulo.

O avô tem autonomia dizia o Rui, qualquer médico lhe passa a “carta”. Como vamos saber? A Teresa que está a acabar enfermagem dizia: “a mãe fala com os médicos. Quer que eu fale?”.

O avô anunciou que dentro de 15 dias teria tudo tratado. Estava informado. O João disse: “Agora, avô? Eu vou casar no próximo mês de Junho. O avô não vai ao meu casamento?”.

A Rita disse: “Pai, a Joaninha está na China a acabar o estágio e regressa em Maio. O pai não se quer despedir dela?”.

A Sandra que é mais sisuda e que assiste a tudo com uma certa distância disse: “Sabe avô, eu estou grávida de quase 4 meses, estava á espera dos seus anos para o anunciar. Eu e o Pedro vamos ter um rapaz. O avô não quer conhecer este seu bisneto?”.

O avô, abriu os olhos, baixou a cabeça e voltando a levantá-la disse: “Que raio de lei – eutanásia – não sei o que me tem feito sofrer mais, se a doença e a saudade da vossa avó, se este peso de ter de decidir quando acaba a minha vida. Nos meus tempos da revolução cantei muitas vezes “eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci” porque não o digo agora…”. Em cada dia há uma esperança.

O avô Paulo que foi um cumpridor funcionário público, zeloso e agraciado com louvores, nunca foi muito dado à Igreja. Mas naquela hora perante o mar de Esperança que tinha à sua volta disse: “Vive-se até que Deus queira… Vive-se até que Deus queira… Desculpem-me esta minha tontice, em vez de vos ajudar ainda vos dou mais este trabalho. Sandra já tens nome para o vosso filho?”. A Sandra respondeu: “Talvez se chame Paulo!”.

 

Boa viagem de regresso para todos.

 

Isilda Pegado