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Nota explicativa sobre a clonagem
O que é a
clonagem
A
clonagem é a reprodução assexuada de um indivíduo. Das manobras de clonagem
resulta um organismo que se intitula clone. Este clone tem composição genética
igual à do organismo que lhe deu origem e, portanto, características físicas
(aspecto exterior, fenótipo) muito semelhantes às daquele organismo. O clone é
tão semelhante ao organismo do qual teve origem como dois gémeos univitelinos o
são entre si. Um clone é pois um gémeo de outro indivíduo que tem porém mais
20, 30 ou mais anos do que o seu gémeo.
A clonagem faz-se no reino vegetal há muito tempo
(às vezes de frutos iguais) e em animais inferiores, mas só recentemente, com
o caso muito mediático da ovelha Dolly, é que foi possível a clonagem de
mamíferos.
Como
se faz a clonagem
Embora haja diversos métodos de fabricar clones, o mais usualmente
empregue é o da transferência nuclear. Em síntese, neste método isola-se um
ovócito (ou óvulo, ou seja o gâmeta feminino existente no ovário), retira-se-lhe
o núcleo, por aspiração com uma pipeta de ponta microscópica e introduz-se o
núcleo de uma célula da pele ou de outro orgão, retirada ao indivíduo que se
deseja clonar. Em seguida, por estímulos químicos e eléctricos apropriados,
provoca-se a divisão do ovócito assim preparado e vão-se dando divisões
sucessivas. Colocando este produto celular no útero de uma fêmea da mesma
espécie, e se as condições forem favoráveis, continua a evolução através dos
estados de embrião e feto até ao nascimento de um indivíduo.
O
que é o clone
O ser clonado ou clone que se desenvolve no útero e vem a nascer
(caso as condições sejam favoráveis) é indubitavelmente, um indivíduo da espécie
em causa, apenas com a característica de ser como que gémeo daquele que lhe deu
origem. No caso da espécie humana (se se vier a verificar uma clonagem de seres
humanos) o clone será uma pessoa como qualquer outra, embora com a
característica de ser igual (ou quase) aquele que lhe deu origem. Isto quer
dizer que, se houver clonagem humana, o clone terá a mesma dignidade que
qualquer outro ser humano e direito a ser respeitada a sua dignidade, liberdade
e integridade.
Quanto à natureza do clone, antes de ser implantado no útero, há posições
divergentes. Como não resulta da fusão de um óvulo e de um espermatozóide, há
quem lhe negue a qualidade de embrião, preferindo chamar-lhe embrioide ou
artefacto embrionário. Do ponto de vista semantico, é verdade que o embrião é
definido como resultando da penetração de um ovócito por um espermatozóide e
fusão destas duas células mas a definição é essa por que era desconhecida, até
aí, outra forma de reprodução que não fosse a sexuada.
Outra corrente de pensamento entende que o clone, antes da implantação, é um
embrião, pois tem características idênticas às do embrião obtido por via sexual,
divide-se e tem o mesmo potencial de originar um nascituro.
Clonagem
reprodutiva versus clonagem terapêutica
A clonagem reprodutiva seria a que tem por fim implantar o clone no
útero e levar a gestação até ao nascimento do clone, o que constitui o objectivo
desta clonagem.
Na clonagem
dita terapêutica, pelo contrário, o objectivo não é implantar o clone no útero
mas sim aproveitá-lo, numa fase ainda inicial do seu desenvolvimento (na fase de
blastocisto) para lhe retirar as células internas, que serão cultivadas
artificialmente. Estas células, que têm o potencial de evoluir para quase todas
as células do organismo, chamam-se células estaminais embrionárias. A ideia é
usá-las para substituir, num organismo de criança ou adulto, as células de
órgãos que, por qualquer razão, funcionam mal ou já não funcionam. Esta técnica
viria a substituir os transplantes e teria a vantagem de não necessitar de
tratamentos do transplantado para evitar a rejeição, no caso do clone ser obtido
a partir do organismo do doente.
Do ponto de
vista da técnica da obtenção do clone, não há qualquer diferença entre clonagem
reprodutiva e clonagem terapêutica
Avaliação ética
A clonagem reprodutiva é consensualmente considerada como gravemente lesiva da
noção ética de respeito pela dignidade e identidade pessoal e por isso é
proibida em grande parte dos países. Entre nós, como em outros países europeus
que ratificaram a Convenção Europeia dos Direitos Humanos e a Biomedicina, é
formalmente proibida. Porquê?
a)
A clonagem põe em risco a identidade
do clone, desde o início cópia do ser que lhe deu origem;
b)
Põe em gravíssimo risco a liberdade
do clone, que será educado como dependendo, inteiramente, das opções e fins do
que lhe deu origem;
c)
Conduz à marginalização social do
clone, que será considerado pelos indivíduos normais como uma cópia e não como
um indivíduo;
d)
Resulta de uma decisão egoísta e
narcisista do clonador, que por razões inteiramente pessoais e não defensáveis
resolveu fazer uma cópia de si mesmo (para ter a ilusão de imortalidade, para
ter um sucessor que ache igual a si mesmo, etc.) em vez de ter um filho;
e)
Não resolve uma esterilidade, já que
o clone não terá pai nem mãe (o que lhe cria também inultrapassáveis
dificuldades sociais, jurídicas e afectivas).
Quanto à clonagem
terapêutica, as opiniões dividem-se. Para os que entendem que o clone não
implantado não é um embrião, os problemas éticos não têm relevância, já que o
objectivo será melhorar ou curar doenças graves, o que em si é ético e louvável.
Para os que não vêem diferenças entre o embrião normal ainda não implantado e
o clone ainda não implantado, o problema ético é grave embora os fins sejam
nobres, não justificam os meios, que constam na instrumentalização do clone e na
sua destruição, a fim de fabricar células estaminais. Dado que os clones têm
todo o potencial para resultarem, se implantados, em novos indivíduos da
respectiva espécie, parece que esta última posição é a mais fundamentada e que
por isso toda a clonagem humana é imoral e deve ser proibida.
Na
prática
Nesta discussão é necessário ter presentes alguns dados práticos. O
primeiro é que não existem hoje provas de que alguma vez tenha sido praticada
uma clonagem humana reprodutiva e nem sequer sabemos se ela é possível na
espécie humana (em certas espécies, como no cão, não se conseguiu realizar a
clonagem).
Em segundo lugar, não se conseguiu até hoje realizar uma única clonagem
terapêutica, isto é, não se obtiveram tratamentos com células derivadas de
clones.
Em terceiro lugar, uma clonagem terapêutica, se fosse possível, teria preços
tão exorbitantes que só seria acessível aos muito ricos, agravando a dificuldade
de acesso a cuidados diferenciados e caros que hoje já se esboça nas sociedades
desenvolvidas.
Por todos estes motivos, justifica-se o embargo de quaisquer experiências de
clonagem humana até haver mais dados da experiência no animal, melhor
conhecimento das bases biológicas e melhor exploração de outras vias (células
estaminais embrionárias ou adultas, redução da antigenicidade de células
transplantadas, etc.) que podem ser mais simples, mais económicas e eticamente
mais aceitáveis.
Em resumo: não deve haver clonagem humana e nem sequer precisamos dela.
Instituto de
Bioética da UCP
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