"Nem sempre se tem em conta que as leis que proíbem o aborto na maioria dos
Estados são relativamente recentes. Essas leis, que em geral proíbem o aborto
consumado ou tentado em qualquer altura da gravidez salvo quando é necessário
para salvar a vida da grávida, não têm origem em tempos remotos. Antes, essas
leis foram aprovadas, na maior parte dos casos, nos finais do século XIX..."
(Roe vs Wade.
Supremo Tribunal de Justiça dos E.U.A. 1973.)
Em poucas palavras pode-se dizer o seguinte: o aborto foi sempre muito
perigoso, pelo que era raro e, quando se fazia, ou falhava ou matava mãe e filho
(1). O resultado de tudo isto é que o infanticídio acabou por
ser preferido ao aborto (2). A Igreja Católica condenava o
aborto - o aborto aparece explicitamente condenado na primeira página de um
escrito cristão do século I, o Didaké - mas os seus teólogos e moralistas
discutiam diferentes graus de gravidade. Em geral, na Europa e na América, as
leis civis seguiam a lei canónica (3).
Por volta de
1750 encontrou-se uma técnica de aborto que, embora continuasse a matar muitas
mães, constituiu um enorme "progresso" (4).
Na sequência da
descoberta que permitia abortos com, comparativamente, alguma segurança, a
rejeição do aborto abrandou e este chegou mesmo a ser legalizado em muitos
Estados. E, quer fosse legal quer não, o aborto no século XIX tomou-se uma
prática muito vulgar.
Contudo, a
legalização teve por base os conhecimentos científicos da época. Grosso modo,
pensava-se que cada espermatozóide é um homem que se limita a crescer dentro do
útero. Porém, em 1827 Karl Emst von Boar descreveu pela primeira vez o processo
de concepção, e em meados do século XIX os médicos estavam já completamente
convencidos da existência desse processo. Muitos médicos iniciaram então uma
campanha para proibir o aborto. A frase que todos pensam ter sido inventada pelo
Vaticano "a vida humana começa no momento da concepção", data, de facto, dessa
campanha iniciada pelos cientistas no século XIX. Um outro slogan dessa campanha
era precisamente "adopção em vez de aborto". (5)
Na sequência de
todos estes sucessos, o parlamento inglês baniu o aborto, em 1869, aprovando o
Offences Against the Person Act. Foi o primeiro país a fazê-lo. Por seu lado a
American Medical Association, em dois relatórios (1857 e 1870), estabeleceu sem
margem para dúvidas que o aborto era inaceitável.
No relatório de
1871 pode-se ler o seguinte: "A única doutrina que parece estar de acordo com a
razão e a fisiologia é aquela que coloca o inicio da vida no momento da
concepção. (...) O Aborto é uma destruição massiva de crianças por nascer. (...)
A proibição de matar aplica-se a todos sem excepção, independentemente do ponto
de desenvolvimento em que a vitima está. (...) Seria uma traição à profissão que
um médico fizesse um aborto. Os médicos que o fazem desonram a medicina, são
falsos profissionais, assassinos cultos e carrascos."
Para o
relatório de 1851, o aborto é "o massacre de um número sem fim de crianças".
Na sequência
destes dois relatórios, o aborto foi proibido praticamente por toda a parte
(6).
No Diário da
Assembleia da República Portuguesa, de 20 de Fevereiro de 1997, páginas 327 e
328, aparece um breve esboço histórico sobre o aborto. Curiosamente, o relator
fala de muitos gregos que aceitavam o aborto (o relator não diz que eles - isto
é, Aristóteles e Platão - aceitavam também o infanticídio) e refere um médico -
Asclepíades - mas esquece-se de referir Hipócrates e o seu juramento, que proíbe
explicitamente o aborto, e que todos os médicos são obrigados a jurar. O relator
fala do aborto na Idade Média (ponto 8, p. 328) e passa para o aborto nos anos
60/70 do século XX... como se a proibição do aborto viesse da Idade Média.
Também não explica por que foi proibido o aborto no século XIX, que é o ponto
crucial em toda esta questão.
(1) Havia dois tipos de métodos: químicos e físicos. Os primeiros consistiam
em venenos que se esperava matassem o filho mas não a mãe; os segundos
consistiam em traumatismos diversos: pancadas no abdómen, montar a cavalo horas
a fio, etc. Estes métodos, além de poderem matar a mãe, provocavam muitas
lesões.
(2) Quando os portugueses chegaram ao Japão, no séc. XVI, numa altura em que
a cultura europeia era contra o infanticídio, ficaram impressionados com a
facilidade e frequência com que as japonesas matavam os seus filhos
recém-nascidos.
(3) Até ao dia 15 de Agosto de 1930 as Igrejas cristãs estavam de acordo na
proibição do aborto. Nessa data, em Lambeth, os anglicanos passaram a aceitar o
aborto em certos casos.
(4) É possível que esta técnica tenha sido, de facto, uma redescoberta.
Tertuliano (150-225), no Tratado da alma, descreve um método de aborto muito
parecido com o actual dilatação e extracção.
(5) No original: "Adoption not abortion".
(6) O leitor interessado em aprofundar a questão poderá consultar J.
Dellapenna, The History of Abortion, Technology, Morality. and Law. University
of Pittsburgh Law Review. 1979.
(João Araújo,
Aborto Sim ou Não?)