SAMUEL 

Era uma vez um menino chamado Samuel e outro menino cujo nome não posso recordar. Quando tinham poucas semanas de vida, o médico de ambos, Joseph Bruner, descobriu que sofriam de “espinha bífida”. Os pais de Samuel decidiram tentar uma operação revolucionária, enquanto os pais do outro menino decidiram-se por uma “operação” muito antiga. No dia 19 de Agosto de 1999, na Universidade de Nashville, Joseph Bruner anestesiou a mãe do Samuel, anestesiou o Samuel –agora com 21 semanas–, corrigiu a deficiência, recebeu um aperto de mão do Samuel, e voltou a deitá-lo no “berço”. O aperto de mão foi captado por um fotógrafo –Michael Clancy– que por acaso estava na sala interessado em conseguir uma notícia sobre  progressos em cirurgia. Imediatamente, confessou mais tarde, passou a achar a outra operação, a antiga,  completamente inaceitável e fez-se pró-vida. Disse também nunca ter dado conta que nos EUA se faz a outra operação a bebés ainda mais velhos que o Samuel (de facto, quatro meses mais velhos). E já agora, Portugal juntou-se aos países civilizados quando em 1997 a lei Strecht Monteiro passou a permitir aplicar o “tratamento antigo” a bebés bem mais velhos que o Samuel.

Mas o caminho da fotografia estava traçado: rapidamente correu mundo, publicada em jornais, na Internet, enviada e re-enviada por correio electrónico para milhares de pessoas, acompanhada por mensagens de emoção, de deslumbramento, de encantamento

Mas o caminho da fotografia estava traçado: rapidamente correu mundo, publicada em jornais, na Internet, enviada e re-enviada por correio electrónico para milhares de pessoas, acompanhada por mensagens de emoção, de deslumbramento, de encantamento; a revista “Life” considerou-a uma das 12 fotografias mais importantes de 1999; por toda a parte movimentos pró-vida fizeram bandeiras com o “aperto de mão”; na Califórnia, a fotografia serviu para apoiar um projecto de lei que visa obrigar os abortadores a anestesiar os bebés antes da operação, a antiga, e Joseph Bruner, que poucos dias antes tinha aplicado o velho tratamento ao bebé que acabou sem nome, reconheceu viver “numa posição cada vez mais difícil”, “num campo de minas”, e que “a sociedade precisa de olhar seriamente para si própria porque não é possível continuar a fazer os dois tipos de operações”. Curioso, afinal não foi Bruner quem fez as operações: foi a sociedade, foi o leitor, fui eu!

Os pais que dão o seu nome ao bebé que vêem, não deixam dar nome ao bebé escondido; o médico que trata quem vê, “opera” o bebé escondido; o jurista que protege quem vê, assina a “operação” do bebé escondido; a sociedade que protege quem vê, paga a “operação” do bebé escondido. Ai! Valha-nos S. Tomé!

João Araújo

(O Samuel hoje...)

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